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ENSAIOS
Entrevista: Huang Ruo
Autor:Indie Opera Podcast
14/mar/2019

Huang Ruo: criação sem fronteiras

 

 

 

Palestras, entrevistas e apresentação na Sala São Paulo — eis o roteiro de Huang Ruo, compositor visitante da Osesp, na segunda semana de outubro. Nascido na China e residente nos Estados Unidos desde 1995, doutorou-se em composição na Juilliard School (Nova York). Seu trabalho integra de forma orgânica diversos estilos, técnicas, timbres e instrumentos musicais chineses e ocidentais. Compõe também ópera, música "folk" e trilha sonora para filmes, teatro e espetáculos de dança. É regente e diretor artístico do Ensemble FIRE, grupo musical dedicado a projetos multimídia. Huang Ruo foi considerado “um dos mais importantes jovens compositores do mundo” e “um dos mais instigantes da nova safra de compositores sino-americanos” pela revista "The New Yorker".

 

 

 


Você nasceu na China. Quantos anos tinha quando saiu do seu país?


Nasci em 1976, no fim da Revolução Cultural, portanto cresci nos anos 1980. Em meados dos anos 1990, quando tinha 18 anos, vim para os EUA estudar.


Que tipo de música você fazia antes de vir para os EUA?


Cresci numa família muito musical. Meu pai também compõe e minha mãe é médica, mas gosta muito de cantar. Quando pequeno, eu tocava piano. Dizem que eu ficava muito nervoso quando tinha de tocar no palco. Eu tocava Bach, errava, e aí começava a improvisar [risos]. Lembro que meu professor sempre me dizia: “Se você não conseguir se lembrar, ou errar, em primeiro lugar não pare; em segundo, não volte ao começo. Dê um jeito, pule [essa parte] e vá em frente. Nunca pare”. Foi uma observação excelente. Essa foi minha primeira lição de profissionalismo. Passei então a improvisar no estilo de Bach e, por incrível que pareça, muita gente na plateia nem percebia.

 

Genial essa história.


Pois é, até que um dia meu professor chegou para o meu pai e disse: “Sabe de uma coisa, acho que seu fi lho tem jeito mesmo é para compositor” [risos]. Foi então que, aos 12 anos, meu pai me mandou para Xangai estudar música. Minha família mora na cidade de Cantão, no sul da China.


Como foi sua formação musical? Você se dedicou à tradição musical do Ocidente ou à música tradicional chinesa? Quais foram suas influências?


Embora meu pai não tenha sido meu professor, tínhamos em casa a tradição ocidental e também a oriental. Meu pai compõe para ambos os tipos de instrumentos e naquele tempo ouvíamos coisas em fi tas cassete e discos, coisas de antigamente. Em Xangai, minha formação foi pautada sobretudo pela música clássica ocidental, embora tivesse amigos que tocassem instrumentos musicais chineses, por isso eu me interessava por eles e pela música escrita para esses instrumentos.


Você toca algum instrumento chinês tradicional?


Mais ou menos. Gosto de brincar com o guzheng [pronuncia-se gudjang], mas não sou bom de verdade nesse instrumento. O guzheng é semelhante ao koto [japonês]. É como uma cítara.


Que você toca no colo...


Sim. Na versão chinesa, o instrumento tem stents [apoios] e remonta a um instrumento muito antigo chamado guqin [lê-se gutchin], dotado de várias cordas; havia, por exemplo, os de sete cordas. O guzheng é maior, produz um som mais alto. É uma versão moderna do guqin, mas já tem alguns séculos de existência. [risos]

 

É tocado com unhas falsas. O guqin você toca com os dedos apenas, por isso o som é mais suave, mais íntimo. Com o guqin você tem uma espécie de música...


De câmara?


É mais como se você tocasse para você mesmo, ou para alguém. No passado, as pessoas queimavam incenso e contavam o tempo de acordo com a rapidez ou morosidade com que o incenso queimava. Elas tocavam, e podiam recitar um poema ou cantar enquanto tocavam. Havia várias possibilidades. É, sem dúvida alguma, um dos meus instrumentos preferidos.


Voltando para o tempo em que eu estudava no Conservatório de Xangai, o que aconteceu foi o seguinte: uma vez, enquanto eu praticava, alguém na sala ao lado tocava Paganini, uma peça para violino. E outra pessoa tocava exatamente a mesma peça, mas no erhu, um instrumento chinês... Só que em outro tom. Achei aquilo muito estranho: a mesma peça tocada em dois tons diferentes e em instrumentos totalmente distintos. Um amigo meu tocava erhu e me contou então que não havia muitas peças contemporâneas escritas para instrumentos chineses. Alguns professores e outros interessados acabavam rearranjando o repertório ocidental para que fosse tocado com instrumentos chineses. Acho que foi a partir daí que eu disse para mim mesmo que, no futuro, se eu pudesse, gostaria de escrever mais músicas para instrumentos chineses, para que fossem tocadas por ensembles, orquestras, instrumentos solistas, simplesmente para que esta bela forma de arte não desaparecesse.


Na escola havia um departamento dedicado à ópera?


No ensino superior, sim. Eu cursava a etapa anterior à universidade, para estudantes de 12 a 18 anos. É um internato em que você aprende música, estuda obras acadêmicas e tudo o mais, mas não existe um departamento dedicado à parte vocal. No entanto, estudamos todo tipo de instrumento ocidental e também os chineses.


Do ponto de vista histórico, que orientação a escola seguia em relação ao século XX? Havia algum preconceito contra a música do século XX?


A verdade é que a China começou a abrir as portas para o mundo ocidental depois da Revolução Cultural. É nesse momento que surgem coisas novas, as pessoas começam a ter dúvidas, a questionar as coisas, a julgar se isso ou aquilo é bom ou ruim. Tivemos então um líder, Deng Xiaoping, que sucedeu Mao Tsé-Tung, e com ele foi como se abríssemos a janela para deixar o ar fresco entrar, mas com isso entraram também outras coisas... como insetos, por exemplo.


Como foi vivenciar tudo isso depois da Revolução Cultural em que as pessoas, conforme você disse, tinham discordâncias? Havia gente com receio diante da cultura e gente entusiasmada com ela. É isso o que você está dizendo, que era uma coisa muito nova?


Creio que, de modo geral, havia um debate muito intenso em torno do belo, do que é o belo. Para algumas pessoas, a beleza está na unidade: uma camisa da mesma cor para todos, bicicletas iguais para todos. Nas fotos de fins dos anos 1970 e princípios dos anos 1980, ou mesmo nas imagens captadas durante a Revolução Cultural, você verá pessoas usando roupas iguais, andando no mesmo tipo de bicicleta, com poucos carros em volta, portanto o que temos, de certa forma, é uma grande unidade.


Não havia bicicletas importadas nem opção de marcas e modelos. A cor era outra questão ligada ao belo em debate. Lembro que o jeans ganhou muita importância nos anos 1980. Eu mesmo tenho jeans de várias cores: azul, preto, roxo... E, mesmo quando eu estava em Xangai, fui para lá em 1989, não era possível comprar coisas. Se você tivesse dinheiro, era preciso ter vales. Com os vales comprávamos sabão, carne, arroz e tudo o mais. Era o que chamávamos de mercado planificado. Então, se na sua casa tinha um número maior de pessoas, você recebia uma quantidade maior de vales; se havia menos pessoas, o número de vales era menor. Uma consequência dessa situação é que você não via pessoas obesas. Tínhamos apenas o suficiente, mas as circunstâncias eram outras.


Eu tenho curiosidade de saber se vocês tinham acesso à música pop, e à música pop ocidental. Havia um comércio paralelo de fitas cassete?


Essa é uma boa pergunta. Nós temos música pop, que começou na segunda metade dos anos 1980. Tínhamos a música pop de Hong Kong, que tem uma influência enorme, principalmente no sul da China, de onde eu venho. Também ouvíamos a música de Taiwan. A música pop de Hong Kong é cantada em cantonês, já a música taiwanesa é cantada em mandarim. Com isso, muita gente que não sabia cantonês aprendia as músicas nesse idioma. No fim dos anos 1980 e princípio dos 1990, a música ocidental começou a chegar na China. Muitas chegavam em CDs e fitas cassete piratas.


Quem eram os ocidentais que chegavam à China?


No meu caso, o que me interessava era Guns N’ Roses, Michael Jackson... [risos]. Eu me interessava pela cultura pop: soft rock, heavy metal. É curioso que, na China, na cultura do norte do país, as pessoas gostam muito de rock and roll. Com isso, surgiu uma tendência no norte da China, em Pequim, ou a oeste de Pequim, que chamamos de folk rock chinês.

 

Os cantores chineses foram influenciados basicamente pelo rock and roll e agregaram a ele a música folk local. É uma música interessante de se ouvir. Eu também canto esse tipo de música.


Você estava familiarizado com a ópera tradicional chinesa? Você chegou a ver alguma naquele tempo?


Sim, estava. Na verdade, eu nasci na ilha de Hainan [no extemo sul da China], meus avós e vários parentes moram lá. Costumava visitá-los várias vezes durante o ano. Lembro que minha avó adorava a ópera de Hainan, então me levava à ópera toda semana. Os artistas faziam excursões a diferentes cidades e se apresentavam ao ar livre.


Eram óperas ocidentais ou chinesas?


Chinesas, mas há vários tipos de ópera na China. Não existe apenas a ópera de Pequim, que é muito famosa hoje em dia. Nós temos, por exemplo, a ópera Qin [lê-se quin], ou Qinju, uma das formas mais antigas da ópera chinesa oriunda da região de Xangai e de Cantão.


É uma bela forma de arte. A palavra significa “cântico”, “música”, portanto não é exatamente ópera. É uma forma de arte muito bonita que mais tarde evoluiu para a forma da ópera; ju significa “ópera”. No início, era como na música italiana com seus madrigais. Música apenas para cantar e não havia a intenção de que fosse encenada no palco. Depois é que apareceram os recitativos, as árias, que permitiram o desenvolvimento de uma história chegando à ópera. Portanto, na ópera chinesa também temos recitativos e árias em que as pessoas falam, mas pela forma como falam, é como se cantassem.


Existe uma mudança nos instrumentos da orquestra durante os recitativos e as árias?


Nas árias, os instrumentos repetem quase que exatamente o padrão das vozes.

 

Em uníssono com a voz.


Exato, há menos polifonia. Na parte recitativa, o número de instrumentos é menor, muitas vezes só se ouve a percussão. Na ópera chinesa há uma singularidade: não há maestro. A percussão faz as vezes do maestro e controla o ritmo. A orquestra, portanto, não está fora do palco ou no fosso. Não há fosso de orquestra na ópera chinesa. A orquestra fica ao lado do palco, de modo que ela vê o que se passa no palco, mas os atores não veem os músicos.


Você já escreveu uma ópera nesse estilo ou gostaria de fazê-lo?


Estudei o assunto, sei bastante do que se trata, mas nunca escrevi nenhuma ópera exatamente nesse estilo. Os antigos eram muito melhores nisso [risos]. A ópera chinesa serve de inspiração para mim. Por exemplo, em Dr. Sun Yat-Sen [2011], integro as formas operísticas e o canto oriental e ocidental, mas isso não significa que eu possa vir a escrever uma ópera ao estilo tradicional chinês.


Já ouvi você cantar e me pergunto se é pouco comum na China estudar composição musical e também cantar. Pode ser que haja compositores que estudem um pouco de canto, mas certamente a maioria não tem coragem de cantar em público.


Acho que é verdade. Nem todo compositor chinês canta. Alguns cantam, mas a maioria, não. No meu caso, sempre digo às pessoas que falo muito alto. Quando dou risada, rio muito alto. É uma coisa que parece pouco elegante. A cultura chinesa é muito calorosa, nós falamos alto. Numa aldeia, por exemplo, se alguém bate à sua porta, você convida a pessoa para entrar e almoçar com você. Quando encontramos um amigo querido, o que se espera é que nós dois conversemos muito alto, mas quando conversamos com desconhecidos, baixamos o volume da voz [risos]. Para a cultura ocidental isso é um absurdo...


Gostei da ideia.


Então, quando mais alto você falar, mais caloroso você é. Eu falo alto, não sinto vergonha de cantar. Sou afinado, mas não tenho formação em canto operístico, por isso não digo que sou cantor de ópera. Mas eu canto uma porção de coisas diferentes: folk rock, folk music, música pop. Acho que tenho uma voz comum.


Trecho adaptado de entrevista de Huang Ruo concedida ao site Indie Opera Podcast the New Face of Opera, em 2014. A íntegra desta entrevista está disponível em: indieopera.com/podcast-27-composerhuang-ruo/. A Revista Osesp agradece ao site e ao compositor pela permissão para publicação. Tradução de A. G. Mendes


GRAVAÇÕES RECOMENDADAS


Huang Ruo: to the Four Corners
Chiao Fen, Tyler et al.
Future In REverse (FIRE)
Huang Ruo, regente
Naxos, 2009


Huang Ruo: Chamber Concerto Cycle (2000-2002)
International Contemporary Ensemble (ICE)
Huang Ruo, regente
Naxos, 2007


Red Rain
Soo Bae, violoncelo
Emanuele Arciuli, piano
Huang Ruo, piano
Innova, 2016

 

Outras obras do compositor, como a versão para folk, rock chinês e orquestra de Shattered Steps (originalmente para orquestra), estão disponíveis para audição em: huangruo.com/listen-watch/

 

Foto: Huang Ruo. Crédito: Wenjun Miakoda Liang