PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
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ENSAIOS
Entrevista: Gabriela Montero
Autor:Arthur Nestrovski
02/abr/2018

Há uma conexão óbvia entre Schumann, Chick Corea e peças de sua autoria, com respeito ao universo infantil. Além dos títulos, existe também uma relação musical?


Eu quis criar um programa que servisse para contrastar o melhor de nós (a inocência) com o pior (a experiência da opressão). A luz contra a escuridão. As peças infantis de Schumann combinam perfeitamente com as de Chick Corea, a ponto de eu não fazer uma interrupção entre as duas obras. Quis criar esse fio musical que atravessasse séculos e estilos musicais e os unisse. Já minhas peças infantis não são compostas. Não há nada escrito. Não existe um plano. Eu as crio no momento, são improvisadas, e, assim como a infância, morrem e se tornam parte de uma experiência intangível. São uma lembrança para mim e para o público. A primeira parte do programa é de uma pureza e fragilidade muito especiais.

 

 

Como fica Shostakovich nesse contexto?


Shostakovich pesa. Dói. Fere, ataca, condena, ri sarcasticamente, tenta sobreviver e nos deixa o legado da escuridão a que foi submetido física, mental, emocional e espiritualmente durante seus anos sob o stalinismo. Sou obcecada pelo tema da nossa condição humana. Como podemos ser seres de amor, de generosidade e empatia uns com os outros, e como também podemos ser tão cruéis, tão impiedosos, tão desumanos. A diferença entre as duas partes do programa destaca essa dualidade. Acredito que é importante não apenas celebrar com música o mais belo de nós e da vida, mas também chamar a atenção para o que podemos nos tornar, se não cuidarmos dessa criança interior. Se não mantivermos nossa pureza e inocência.

 

 

O programa também terá uma parte dedicada às suas improvisações? Você pedirá sugestões ao público, como de costume, ou usará elementos do próprio programa?


Sempre gosto de improvisar com o público no fim de meus concertos, usando alguma melodia sugerida, para que a plateia aprecie ouvir como os temas são transformados. Acredito que ver o processo criativo ao vivo — e não como uma coisa que pertence a outra época — é algo que emociona muito. Quando lembramos que Mozart, Bach, Beethoven, Chopin, Liszt etc. foram grandes improvisadores, percebemos que a improvisação sempre foi um modo de expressão no mundo clássico. Adoro fazer essa ponte com o passado; e espero que o público goste!

 

 

Quantos programas diferentes de recital você apresenta na mesma temporada?


Geralmente dois, além de vários concertos para piano e orquestra.

 

 

Nesta semana você também toca Mozart com a Osesp. Porque o nº 14 em especial?


É um concerto que já toquei várias vezes e que aprendi há alguns anos. Para ser sincera, acho que foi escolhido por Alex Shelley! Adoro Mozart e de fato acredito que é o maior compositor de todos os tempos. E por que acredito nisso? Porque dentro do que era o estilo da época, limitado em termos de linguagem estilística, cada escolha de Mozart é sempre perfeita.

 

 

Há dois anos você tocou com a Osesp nos festivais de Lucerna e BBC Proms, além de ter tocado aqui em São Paulo. Do ponto de vista musical, o que mais lhe impressiona nessa orquestra?


É uma orquestra maravilhosa, com disciplina, mas também com uma espontaneidade cativante. Sinto-me muito à vontade com a OSESP do ponto de vista musical e humano. É sempre um prazer dividir o palco com eles! A direção e o resto da equipe são apaixonados por música e são pessoas maravilhosas. O que mais se pode pedir?

 

 

De nossa parte você tem toda solidariedade, por isso não podemos deixar de lhe dar espaço para falar sobre a situação em seu país.


Muito obrigada. Finalmente, o mundo já conhece, em parte, a tragédia da Venezuela nos últimos 20 anos. Para mim, durante estes oito últimos anos, tem sido difícil falar da situação, quando até recentemente o mundo não queria ouvir nem tomar conhecimento do que vinha sendo feito pelo regime no meu país. Hoje já sabemos que o problema da Venezuela não é um problema de governo de esquerda ou de direita. É uma narcomáfia e uma ditadura gerida por um grupo de criminosos no poder. Parte o meu coração ver o enorme sofrimento em que os venezuelanos vivem diariamente na Venezuela e também no exílio. É uma grave crise humanitária, que merece atenção internacional. Faço o meu melhor todos os dias para ajudar na transição para a democracia e ajudar os venezuelanos mais necessitados. Peço ao meu público que, por favor, não feche os olhos à nossa situação e se mantenha informado. O pior para uma vítima de injustiças é se sentir invisível e ignorado. Obrigada!


Entrevista a Arthur Nestrovski