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ENSAIOS
Entrevista: Marcos Thadeu e a Paixão 
pela Música
Autor:Paulo Verano e Renato Roschel
27/mar/2018

Em uma longa carreira voltada para a música clássica e para o ensino, não seria incorreto dizer que nas últimas décadas a música coral no Brasil é, em boa parte, resultado e reflexo da paixão desse mineiro pelo canto erudito. Marcos Thadeu forjou dezenas de cantores em diversos coros pelo país. Foi preparador vocal do Coro da Osesp por 17 anos.

 

Nos últimos cinco anos, assumiu também a regência do Coro Acadêmico e acaba de assumir o Coro Juvenil da Osesp.


Para ele, ser artista e professor são coisas diferentes, porém igualmente gratificantes. Na sua juventude, Marcos Thadeu saía toda semana de Belo Horizonte para enfrentar sacolejantes viagens de ônibus de 14 horas em estrada de terra. Tudo isso para dar aula de canto no Conservatório Lorenzo Fernandez, na cidade de Montes Claros, também em Minas Gerais. Thadeu fez essa peregrinação por mais de dez anos e conquistou títulos e prêmios para o coral da cidade do norte de Minas.


Essa mesma paixão, que arrebatava o menino Marcos Thadeu quando ouvia música clássica no rádio da família em Belo Horizonte, reverbera ainda hoje nos cantores dos Coros da Osesp. Sua incansável disposição para aceitar desafios e fazer música de alto nível é um privilégio para o nosso público.


Na entrevista a seguir, Marcos Thadeu, Músico Homenageado da Temporada 2018, fala de sua carreira, do amor arrebatador pela música alemã e de, assim como outro grande mineiro, ser gauche na vida.


Como foi sua formação de músico? Poderia comentar a sua trajetória?


Tive uma infância muito complicada, porque eu me interessava por coisas que não sabia exatamente o que eram. Foi muito complicado, porque eu, um menino negro, gostava de um programa da Rádio Aparecida do Norte no qual não entendia o que era falado. O locutor anunciava o programa e eu ouvia aquilo com falta de ar de tanta emoção, mas não sabia o que ele dizia.


Só vim a entender muitos anos depois, quando comecei a estudar alemão, que o programa se chamava Die Deutsche Stunde, ou seja, A Hora Alemã. Schubert, Schumann. Aquilo era uma loucura, porque eu não entendia o que era. Não sabia de onde vinha ou mesmo o que significava.


O que eu sentia era que aquelas músicas causavam em mim muita angústia. Não sabia que universo era aquele. Só sabia que eu tinha de ouvir aquele programa, mesmo que fosse num rádio que chiasse como o diabo.


É por isso que, na hora que eu passar dessa para outra, vou pedir explicação. Perguntar: “Como apareceu isso na minha vida, gostar tanto de música alemã, eu, uma criança de sete ou oito anos em Belo Horizonte?”.


Na verdade, sempre fui ao contrário de tudo. Na minha rua, as crianças gostavam de jogar futebol. Eu não gostava, queria jogar vôlei. Queriam que eu jogasse futebol com elas e eu exigia que, depois do futebol, nós jogássemos vôlei.

 


Sua família teve um papel importante nesse seu contato inicial com a música?


Eu tinha um irmão mais velho que foi padre e tocava violino. Minha mãe tocava flauta, na minha família todos conheciam música. Pai, mãe, as tias que cantavam na igreja.


Depois, por volta dos meus 16 anos, eu cantava no coro da igreja quando o regente morreu. Nesse momento, os membros do coro acharam que eu devia assumir esse trabalho. Portanto, com 16 anos comecei a dirigir um coro, na Igreja de São Judas Tadeu, no bairro da Graça, em Belo Horizonte.


Aos 17 anos, eu trabalhava com coro e estudava no colégio, onde uma professora de música se encantou com a minha voz. Ela me levou para uma escola particular, a Fundação de Educação Artística, onde estudei música.


Depois, comecei a participar do Coro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais, regido pelo Carlos Alberto Fonseca. Essa foi realmente minha grande escola. Foi minha turma, aliás, em meados da década de 1960, que mudou o nome desse coro para Coral Ars Nova.


Ter trabalhado com Carlos Alberto e estudado regência com ele ajudou muito na minha formação. Com esse coral eu viajei muito. Estados Unidos, Coreia, Filipinas. Ainda hoje, o Ars Nova é o coro mais premiado do Brasil, com vários prêmios na Europa e nos Estados Unidos.

 


Em sua carreira de tenor solista, quais foram os momentos mais marcantes?


Um acontecimento marcante na minha vida foi a primeira ópera que eu cantei. Isso ocorreu quando o maestro Carlos Eduardo Prates me ouviu estudando e disse: “Você tem acentos dramáticos na voz e deveria estudar a Carmen, de Bizet”. Depois, me convidou para interpretar Dom José nessa montagem.


Como nunca havia cantado ópera, aquela foi uma experiência marcante e muito boa. Abriu esse campo que eu não conhecia. Sempre fui mais de música de câmara. Depois vieram várias outras óperas, mas Carmen foi minha entrada no mundo da ópera.

 


O senhor foi aluno de Sergio Magnani, Esther Scliar e Eladio Pérez-Gonzáles, entre outros. Como os ensinamentos desses mestres estão presentes no seu atual trabalho com os músicos do Coro Acadêmico e do Coro Juvenil da Osesp?


Realmente eu tive grandes mestres. Esther Scliar era uma mulher à frente de sua época, uma musicista e pedagoga fantástica. O maestro Sergio Magnani também, mas principalmente o Carlos Alberto Fonseca. O que eu aprendi com esse pessoal, além das partes teóricas e práticas, é gostar muito de fazer música de alto nível, de fazê-la bem. Eram todos músicos de altíssimo gabarito e o legado que me deixaram, e que eu tento passar para a frente, é a paixão de fazer a grande música, ou pelo menos de tentar fazer grande música.


Há cinco anos, essa oportunidade me foi dada de presente quando comecei a trabalhar com o Coro Acadêmico da Osesp. O Marcelo Lopes e o Arthur Nestrovski me chamaram para me dar um desafio, que era cantar a Missa Glagolítica, de Janáček. Como gosto muito de desafios, aceitei e fiz o coro cantar essa obra.


A partir desse momento, passei a colocar toda a carga dos grandes mestres que recebi nesse trabalho, e desde então os resultados têm sido muito interessantes. Hoje, o Coro Acadêmico é um coro muito importante no nosso cenário.

 


Qual o balanço geral que podemos fazer dos cinco anos do Coro Acadêmico da Osesp?


Ter conseguido fazer o Coro Acadêmico cantar as obras que cantou nesses últimos cinco anos não tem como descrever, é algo muito relevante. O Coro Sinfônico da Osesp, formado por cantores com 20 ou 30 anos de experiência, hoje interpreta obras junto ao Coro Acadêmico, sem que esse seja um arresto, seja um peso. Ao contrário, o Coro Acadêmico dá uma contribuição grande ao Sinfônico.


Agora, o desafio é manter a qualidade. Às vezes, atingir uma meta é difícil, porém, é ainda mais difícil permanecer dentro da qualidade atingida. Manter-se no alto nível é muito desafiador, principalmente porque a cada três anos eu tenho um outro coro, os cantores só ficam três anos.

 


Quais são as suas expectativas para a produção coral no Brasil a partir de projetos como esse e outros similares? O que nos falta fazer para desenvolver a produção coral brasileira?


É complicada a questão da música coral no Brasil porque não temos tradição nessa área. Existem grandes polos aqui, mas não é como na Alemanha, por exemplo, onde desde 1200 há gente cantando, ensinando a cantar, fazendo música vocal e organizando coros.


Aqui há ainda outro agravante. Tiraram a música da escola e não colocaram nada no lugar. É uma dificuldade, porque quando o jovem resolve que vai estudar canto ou pertencer a um coro, ele já tem por volta de 17 anos, e essa idade já é um pouco tarde, quando comparamos com países como a França e a Alemanha, onde o ensino de música ocorre desde o jardim da infância.


O trabalho coral no Brasil já esteve até um pouco mais intenso do que agora. Quando eu cantava no Ars Nova, por exemplo, nós tínhamos quatro ensaios por semana e, portanto, tínhamos um ritmo de trabalho de profissionais. Tudo isso sem ajuda de custo. Nós pagávamos o ônibus e o lanche pelo gosto de cantar no coro.


Hoje, a vida ficou tão complicada que o jovem não tem mais condição de fazer isso. Se você marcar dois ensaios por semana para um grupo, eles não vão conseguir comparecer porque precisam trabalhar ou não têm apoio ou dinheiro. Isso é um complicador para o desenvolvimento do canto coral no Brasil.

 


Para alterar esse quadro, é preciso reinserir a música no ensino fundamental?


Sim. Na minha época de ginásio, por exemplo, você tomava “bomba” em música. Se você errasse um solfejo era reprovado. Também me parece que naquela época não se tinha tanta necessidade de consumo como agora. Nós tínhamos uma roupa, um sapato. Agora, as pessoas precisam ter muito, gastar muito, ter celular de grife, roupa de grife. Isso faz com que as pessoas se distanciem de uma coisa que inicialmente não vai dar dinheiro para elas.


Para se ganhar dinheiro com canto, o músico leva pelo menos uns dez anos de estudos e práticas.

 


Mais intersecções entre o erudito e o popular poderiam ajudar a trazer o público jovem para a música clássica?


Eu acho que não. É interessante trabalhar nessas intersecções. Eu mesmo faço shows de música popular e faço música popular com o Coro, mas acho que o que devem aparecer são condições para os jovens brasileiros aprenderem a fazer música erudita. Eu gostaria de ver que o Brasil amanheceu com possibilidades de fomentar a arte erudita.

 

Entrevista a Paulo Verano e Renato Roschel