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ENSAIOS
Entre o Jazz e a Música Erudita
Autor:Entrevista de Alexandre Silvério a Gabriela de Souza
05/ago/2022
Alexandre Silvério, o Músico Homenageado desta edição.

Alexandre Silvério, primeiro fagote da Osesp, tem 46 anos e começou a estudar o instrumento aos 14. Há mais de duas décadas na Orquestra, ele conta sobre sua trajetória de estudante e profissional, suas influências e ídolos, o período na Alemanha, o quinteto Camaleon Bassoons e como é ser músico de jazz e de música erudita ao mesmo tempo.

 

Como foi sua iniciação musical e a escolha pelo fagote?

 

Na igreja que minha família sempre frequentou, tinha uma orquestra. Eu achava superlegal, porque tinha um pessoal da minha idade — eu já era adolescente nessa época, 12 ou 13 anos. Então, quis participar também. Comecei com a flauta doce, mas, com o passar do tempo, percebi que não era a voz que queria. Queria um instrumento com mais volume e que fizesse parte das orquestras. Meu irmão Marcelo sugeriu o fagote e que eu entrasse na Escola Municipal de Música, porque poderia ter aulas regulares e escolher o instrumento. No ato da inscrição, quase optei pelo trompete [risos]. Ainda não sabia o que era o fagote, só tinha visto o formato e, naquela época, não tinha internet, não era tão fácil pesquisar. Um dia, fui a uma loja de música e comprei o CD de um duo de flauta doce e fagote. Estava claramente mais interessado na parte da flauta doce — era um concerto de Telemann que começava com a flauta doce — mas, quando o fagote entrou e eu ouvi o som do instrumento, fiquei apaixonado.

 

E como se deu a transição de estudante para profissional?

 

Tive aula com um austríaco, Gustav Bush. Na seletiva, ele me perguntou se eu queria encarar o fagote como hobby, se queria ser solista ou trabalhar em orquestra. Disse que queria ser solista, e ele me respondeu que era impossível ser solista com o fagote, que, se eu tivesse sorte — muita sorte —, poderia tocar em uma orquestra. Eu não tinha o instrumento para estudar em casa, todos os dias ia de Osasco até a Vila Mariana para estudar com o fagote da Escola Municipal. Com o tempo, me envolvi com o instrumento, com a música, com a prática, e tinha orgulho de tocar fagote, de ser fagotista. Quando eu dizia que tocava fagote, ninguém sabia o que era e eu achava legal não ser comum o que eu tocava.

 

Uns três anos depois, abriu vaga na Orquestra Experimental de Repertório [OER, um dos corpos artísticos do Theatro Municipal de São Paulo]. Passei na segunda tentativa. Eu tinha três ou quatro anos de fagote, ficava me perguntando como poderia tocar com músicos tão bons. Depois de um tempo, o Francisco Formiga — hoje meu companheiro de naipe na Osesp — passou a ser monitor da Experimental. Ele tocava fagote havia mais tempo, era mais experiente e me apadrinhou. Estudei com ele uns quatro anos. Além da Experimental, passei a tocar também na [extinta] Banda do Estado de São Paulo e participei dos festivais de Campos do Jordão e de Curitiba.

 

Em 1997, estudei muito, fiz a prova da Osesp e passei. Foi um grande passo para mim. Nos primeiros anos, tive que me esforçar muito. Os músicos eram bons e experientes, e eu não conhecia muito repertório de orquestra, quebrava a cara direto. Músico profissional tem o repertório sinfônico de cor. Eu não tinha essa experiência, mas ia atrás. Foi um grande aprendizado.

 

Mesmo conquistando a vaga na Osesp, uma orquestra profissional, você decidiu estudar fora do Brasil e sair da instituição por alguns anos. Como foi tomar essa decisão?

 

Na época, ganhei a bolsa da Fundação Vitae para estudar em Berlim, na Hochschule für Musik Hanns Eisler. Fui estudar com meu ídolo, o músico daquele primeiro disco, do concerto de Telemann, Klaus Thunemann, o Itzhak Perlman do fagote. Todo fagotista é fã desse músico. Pedi uma licença artística da Osesp por um ano, depois estendi para dois. Quando estava perto de retornar, entendi que ainda tinha muito o que aprender e pedi demissão da Osesp. Ainda não era hora de voltar.

 

Terminei o curso com o Klaus e entrei na Academia da Filarmônica de Berlim, onde fiquei dois anos estudando. Tinha livre acesso para ver ensaios, ficava próximo dos músicos, tocava com a orquestra, viajava com eles, pude tocar com meus ídolos, mas não queria ficar na Alemanha. Por sorte, a vaga de primeiro fagote da Osesp ainda estava aberta. Em 2003, prestei a prova, passei e retornei para o início da Temporada de 2004. Foi uma vivência necessária e importante. Tive um aprofundamento grande no repertório sinfônico.

 

Você também tem uma carreira na música de câmara, principalmente com o quinteto de fagotes Camaleon Bassoons Ensemble. Nesse projeto, você também faz os arranjos. Pode contar um pouco sobre essa experiência?

 

O Camaleon Bassoons funcionou como uma oficina para a gente. Tanto eu quanto o Romeu [Rabelo, contrafagotista da Osesp] não somos arranjadores. O grupo precisava de repertório para tocar e encaramos o desafio para fazer o projeto andar.

 

Fundado em 2011, o Camaleon Bassoons é composto pelos integrantes do naipe de Fagotes da Osesp — além do próprio Alexandre, fazem parte Francisco Formiga, José Arion Linarez e Romeu Rabelo — e por Mariana Bergsten, da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp).

Minha grande paixão é o jazz. Houve uma fase, em Berlim, que queria desistir de ser músico de orquestra e me dedicar exclusivamente ao jazz. Assisti a muitas aulas de improvisação, mergulhei nesse universo; tudo isso me fez ter uma base para escrever hoje para o Camaleon Bassoons. Não foi fácil transpor ideias percussivas para um grupo de fagote. O primeiro arranjo que fiz foi de Take Five [de Paul Desmond]. Quando levava os arranjos nos ensaios, algumas coisas não davam certo, eu voltava para casa para encontrar soluções que funcionassem para os fagotes. Voltava para o grupo e testava de novo. O pessoal foi muito paciente, colaborativo, e conseguimos ajustar os arranjos com o passar do tempo.

 

Quais foram suas influências jazzísticas? Acha que tocar jazz o fez um melhor músico sinfônico?

 

Meu pai gostava muito de big band. Lembro dele tocando em casa e achava cafona [risos]. E na igreja também tinha arranjos jazzísticos. Só depois de 1993 comecei a gostar do estilo. Com o Francisco Formiga, estudávamos muito no Centro de São Paulo e, um dia, fomos numa loja de partituras e nos deparamos com um método para saxofone do Charlie Parker [saxofonista americano] com as transcrições das peças dele. Comecei a estudar, lia as transcrições com o fagote, não entendia muito, mas gostava de como soava, era diferente de tudo o que já tinha ouvido.

 

Até que me disseram para estudar com um saxofonista e procurei o Roberto Sion. Ele me deu uma base muito boa, nunca tinha ouvido um fagotista tocar jazz, achava que eu era o único. Não tinha internet, nem disco, nem gravação. Não chegava nada de fagote no Brasil.

 

Depois de um tempo, Sion me disse que o Toninho Ferragutti tinha uma gravação com acordeão e fagote de um americano, Ray Pizzi, saxofonista que veio a tocar fagote. O som dele era de saxofone, mesmo tocando fagote, mas ele foi uma grande influência para mim em termos de articulação, o que dava para fazer no fagote dentro do jazz.

 

Pouco antes de viajar [para Berlim], diziam para eu não ficar tocando jazz porque os músicos alemães não iriam gostar. Mas, em uma das minhas primeiras aulas com o professor Klaus Thunemann, que era também um grande pianista, estávamos falando sobre a harmonia em um concerto de Vivaldi, e ele o relacionou com o jazz. Disse que as harmonias do jazz já estavam presentes muito antes da criação da cena musical. Então, na verdade, tive contato com jazz também em Berlim, onde muitos músicos da Filarmônica tinham também grupos e tocavam juntos. São linguagens diferentes, mas uma complementa a outra, principalmente pensando em harmonias avançadas e no perfeccionismo. Eu me tornei esse híbrido, que vive para o jazz e para o erudito.

 

Você pegou Covid e os desdobramentos da doença foram muito sérios. Como foi retornar ao palco da Sala São Paulo em julho de 2021?

 

Só posso dizer que foi um milagre. Fui entubado, fiquei internado muitos dias e, quando acordei, parecia que um alienígena tinha arrancado todos os músculos do meu corpo, porque nada mexia.

 

Lembro de chegar em casa e sentir uma grande emoção de encontrar minha esposa e minha filha, mas queria também ver como estava meu fagote. Queria voltar a tocar logo, mas não tinha condições. Estava vendo tudo desnivelado, torto, porque a doença mexeu com o labirinto. Não tinha energia. Tive escaras, fiz quatro cirurgias e não conseguia ficar sentado. Passei muito tempo deitado, em repouso, de lado, sonhando em voltar a tocar, para assim voltar também à Orquestra.

 

Passei a fazer fisioterapia e, duas semanas depois de voltar para casa, peguei o fagote pela primeira vez. Foram três meses sem tocar — nunca fiquei tanto tempo sem tocar. O instrumento virou um corpo estranho. Montei o fagote, coloquei a correia e o achei tão pesado! Toquei cinco minutos. Suava muito, fiquei sem fôlego, mas foi um início. Fiquei uma semana tocando cinco minutos por dia, depois 20, depois fui me esforçando e consegui alcançar uma hora, duas, três, até ficar estável e conseguir voltar a trabalhar com a Orquestra, que foi também a abertura do Festival de Campos do Jordão, com a Segunda Sinfonia de Rachmaninov. No primeiro ensaio, os colegas me aplaudiram muito quando cheguei, foi emocionante.

 

Confesso que mudei bastante depois que voltei para casa. Tenho uma filha de 3 anos e, muitas vezes, depois do trabalho, queria ficar estudando e tocando em casa. Quando o médico disse que eu precisava ser entubado, só pensava que poderia ter passado mais tempo com ela. Fiquei com medo de ela ter que crescer sem pai. Quando voltei, entendi que preciso valorizar o meu trabalho, o meu instrumento, mas preciso ter tempo para curtir a família e ser feliz.

 

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GRAVAÇÕES RECOMENDADAS

 

Entre Mundos
Alexandre Silvério Quinteto

Edição independente, 2015

 

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Entrevista a Gabriela de Souza, Assessora Artística da Fundação Osesp.

 

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Alexandre Silvério nasceu em 1975, em Osasco, São Paulo. Iniciou os estudos de piano aos 6 anos (por dois anos apenas) e os de fagote aos 14 sob a orientação de Gustav Bush na Escola Municipal de Música, em São Paulo. Integrou a Orquestra Experimental de Repertório (OER) aos 17 anos, sob a monitoria de Francisco Formiga (hoje seu colega no naipe de Fagotes da Osesp). Foi selecionado por concurso para integrar a Osesp pela primeira vez aos 22 anos. Recebeu uma bolsa da Fundação Vitae para estudar na Hochschule für Musik Hanns Eisler, em Berlim, sob a orientação de Klaus Thunemann. Entrou na Academia Filarmônica de Berlim, sob a orientação de Markus Weidmann. Foi selecionado por concurso pela segunda vez para integrar a Osesp como Fagote Principal aos 28 anos. Com outros fagotistas da Osesp, formou o quinteto de fagote Camaleon Bassoons. Gravou o CD Entre Mundos com o Alexandre Silvério Quinteto, em 2015 (disponível no Spotify). Durante turnê da Osesp em 2019, o Camaleon Bassoons fez sua estreia na China; em 2021, o grupo lançou seu primeiro CD, Movimento.

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