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ENSAIOS
“Água Pura Gelada”: a Música de Sibelius
Autor:Laura Ronái
05/jul/2022
Sibelius em casa ao piano, c. 1930

Quando Jean Sibelius completou 70 anos, um grande banquete foi organizado em sua homenagem. Entre os convidados estavam todos os antigos presidentes da Finlândia ainda vivos e os primeiros-ministros da Dinamarca, da Noruega e da Suécia. Essa ilustre companhia dá bem a medida da importância deste compositor que passou a ser símbolo da identidade musical finlandesa e figura de proa dentre os compositores escandinavos, mas ainda não reflete a dimensão internacional que seu nome viria alcançar.

 

Sibelius nasceu em 1865 na pequena cidade de Hämeenlinna e se mudou em 1885 para a capital, Helsinque, onde pretendia se firmar como advogado. Tais planos foram rapidamente deixados de lado em favor da música. Antes de se decidir pela composição, pensava a sério na carreira de violinista profissional, mas ele mesmo acabou achando que não tinha temperamento adequado aos palcos e, não sem sofrimento, desistiu do violino. Completou a formação musical em Helsinque, depois em Berlim e Viena. E ainda que, como era a praxe na Europa de então, seu estilo inicial fosse fortemente calcado nos modelos clássicos vienenses, foi a identidade nórdica, procurada voluntariamente e cuidadosamente cultivada, que o catapultou para a fama.

 

Começou a carreira de sinfonista homenageando os românticos alemães e russos (especialmente Tckaikovsky) e também o austríaco Bruckner, mas terminou encontrando uma linguagem pessoal e atemporal. No século XIX, o centro irradiador da música sinfônica havia sido Viena e ainda era assim no início do século XX. Muito da música que se escreveu neste período soa vienense, seja sua origem a Áustria, a Boêmia ou a Hungria. Os temas podiam buscar o folclore, a cor local, mas havia uma estética globalizante.

 

Embora tenha estudado em Viena, Sibelius conseguiu incorporar as influências dos principais compositores do passado recente e de sua época, sem, no entanto, perder a própria voz. Desenvolveu uma linguagem sinfônica própria e profundamente conectada ao espírito e às paisagens nórdicas, o que, paradoxalmente, é exatamente o que lhe confere indiscutível universalidade. “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” A frase de Leon Tolstói se encaixa perfeitamente à obra de Jean Sibelius.

O menino Sibelius, final da década de 1870 ou início da década de 1880.

 

Suas sete Sinfonias lhe garantiram um lugar entre os grandes sinfonistas do século XX, e a maior parte dos musicólogos não hesita em outorgar-lhe o título de herdeiro dos grandes mestres do século XIX. Nos anos 1930, essa posição era uma unanimidade. No verbete “Jean Sibelius” da International Cyclopedia of Music and Musicians, publicada em 1938, pode-se constatar o status elevado que o compositor alcançou ainda em vida:

 

O desenvolvimento do estilo sinfônico e harmônico de Sibelius procedeu de maneira não apenas inteiramente original, mas uma na qual existe pouca referência a desenvolvimentos contemporâneos na música de outros compositores. No início sua forma é clássica, apesar de a velha garrafa já estar transbordando com novo vinho. Nesse período a harmonia de Sibelius não é distinguida tanto pela originalidade de material quanto pela novidade no uso de material já conhecido e pela maneira inovadora e altamente pictórica da sua orquestração nórdica.¹

 

Cada nova sinfonia a vir à luz suscitava verdadeira comoção entre seus pares. A Oitava, que foi anunciada, porém nunca concretizada, era esperada pelos especialistas e pelo público como um evento de importância fundamental no mundo da música. Mas, durante uma década de expectativa, nada aconteceu. Havia rumores de que a sinfonia teria sido escrita e destruída pelo compositor, cada vez mais implacável em sua autocrítica. Essa hipótese nunca foi confirmada ou rejeitada. Seja como for, Sibelius era ainda uma figura central para a composição europeia, admirada por todos.

 

Foi depois da Segunda Guerra que começaram a aparecer vozes dissonantes. Alguns críticos e musicólogos passaram a julgar a música do mestre finlandês anacrônica, reacionária, amarrada ao século XIX. Sibelius caíra do pedestal e o fato de ter praticamente parado de compor não o ajudou a retomar seu posto. Era aquele grande mestre ainda digno de respeito, mas apegado  às tradições e já considerado ultrapassado.

 

O público discordava e continuava a apreciar uma música que fazia sonhar, possibilitando a entrada em novos mundos. Assim, apesar de ser olhado com condescendência pelos musicólogos e críticos, sua obra continuava viva e presente nas salas de concerto. Nos anos 1970, o nome de Sibelius começou a ser reabilitado pela intelligentzia e, nos anos 1980, voltou a ocupar o lugar de proeminência que de fato lhe cabe. Desde então, seu estilo sofisticado, cheio de minúcias e camadas que se revelam a cada nova audição, passou a servir de guia e inspiração para dezenas de compositores, particularmente aqueles que trabalham com música de cinema e procuram uma sonoridade épica e grandiosa, misteriosa e impactante.

A casa em que Sibelius nasceu, em Hämeenlinna, Finlândia.


Não é à toa que o programa de escrita digital de música inventado pelos irmãos Benn e Jonathan Finn em 1993 leva o nome de “Sibelius”. Como declarou Benn: “Olhando para trás, ainda acho que foi um bom nome, tendo acertado o tom por ser tradicional, mas também moderno”.²


Arthur Nestrovski concorda e afirma que “Sibelius é um desses autores que só têm ficado melhores com o tempo, como Richard Strauss e Rachmaninov, para citar dois contemporâneos dele, que, como ele, vêm sendo reavaliados e cada vez mais admirados. Nenhum deles fez revolução tonal. Mas Sibelius, de sua parte, renovou incrivelmente a forma da sinfonia e manteve do início ao fim uma imaginação única, um verdadeiro mundo próprio, irresistível”.³

 

Esse mundo próprio era profundamente conectado ao folclore finlandês, à paisagem grandiosa e gélida do país, com seus lagos imensos e densas florestas cobertas de neve, e ao caráter melancólico de um povo que passa a maior parte do ano mergulhado em invernos particularmente longos.

 
Sibelius afirmava procurar em suas obras uma conexão lógica das ideias musicais, mas professando profundo amor à natureza e à paisagem de seu país; frequentemente o que guiava sua arte era a imersão nas cores, clima, sensações e paisagens naturais.


Curiosamente, esse compositor tão identificado com sua pátria a ponto de ser considerado herói nacional provinha de uma refinada família sueca de classe média. Como a Finlândia havia sido parte do reino da Suécia e depois da Rússia, contava com muitas minorias suecas e russas. De fato, a primeira língua de Sibelius foi o sueco e ele só veio a aprender finlandês após os 10 anos de idade. E, mesmo depois de consagrado, nunca abandonou totalmente as raízes suecas. Dentre suas canções, várias são na sua língua natal. Ainda adolescente, deixara-se encantar com as tradições nórdicas em geral e tinha apreço particular pelo grande poema épico Kalevala, que seria a inspiração de sua primeira grande obra sinfônica.

 

Escrita aos 27 anos, Kullervo, densa, repleta de ritmos irregulares, temas obsessivos e modalismo, obteve sucesso instantâneo e fez dele uma das vozes mais importantes da música no país que, em pleno processo de se livrar do jugo da Rússia, ansiava por uma arte que enfatizasse as raízes nacionais. A Suíte Lemminkäinen, que se seguiu a Kullervo, também se inspirou no Kalevala e igualmente foi aclamada pelo público. O poema sinfônico Finlândia, considerado uma espécie de hino alternativo, confi rmou defi nitivamente seu apreço pelas origens nacionais e seu prestígio.

 

Caricatura do compositor do Cisne de Tuonela, em 1898, do artista gráfico sueco-fi nlandês Alex Federley (1864-1932).

Já autor consagrado aos 33 anos, depois de uma primeira viagem à Itália em 1899, Sibelius começou a escrever sua primeira sinfonia, com a intenção de fazer música abstrata, sem programa e que, como ele viria a comentar sobre a Sinfonia nº 6, buscasse um som “como água pura gelada”. Mas a própria comparação revela uma conexão com o mundo de imagens e sensações físicas. Por mais abstrata que se pretenda, o caráter atmosférico da obra nos faz mergulhar de imediato em um ambiente de vastas geleiras e florestas misteriosas cobertas de névoa.

 

A sinfonia, bastante devedora aos compositores russos, especialmente Tchaikovsky, oferece solos extensos para cordas e sopros com igual generosidade. O início é único e mesmerizante: um clarinete solitário desenvolve um canto plangente sobre rufar de tímpanos. A percussão, que na música sinfônica frequentemente evoca a alegria, a dança, a corporalidade, aqui é o prenúncio de algo desconhecido e perigoso, a fina camada de gelo sobre o lago que pode se quebrar a qualquer momento.

 

O clarinete parece contar uma história de desolação, comentada em seguida pela orquestra, que explica, com mais detalhes, os acontecimentos tristes do relato. É a entrada dos sopros, especialmente das flautas, que vem trazer algum alívio a uma música cheia de ansiedade e apreensão.

 

O segundo movimento é ainda mais tenso: lento, angustiante, cheio de expectativa. Torna-se mais rápido, mais intenso, mais violento, para voltar à tranquilidade no final. O scherzo pode às vezes parecer brincalhão, mas os pizzicatti escondem algo de ameaçador. No quarto movimento, temos de volta o tema do clarinete, reforçado por uma massa sonora bem mais poderosa. Esse movimento se desenvolve livremente e termina com um gesto conclusivo, mas de alguma maneira pouco jubiloso, a afirmação de uma certeza que é triunfante, mas chega tarde demais.


No início de 1900, Kirsti, a filha caçula de Sibelius, contraiu tifo e veio a falecer. Aino, a esposa do compositor, entrou em profunda depressão e os problemas de Sibelius com o alcoolismo se agravaram. Ainda naquele ano, Sibelius fez uma turnê internacional de 19 concertos, em que várias de suas obras orquestrais foram apresentadas, junto às de outros autores finlandeses: a Sinfonia nº 1, Finlândia, O Cisne de Tuonela e O Retorno de Lemminkäinen (da Suíte Lemminkäinen) e a Suíte Rei Christian II. Essa turnê foi crucial para  consolidar sua reputação internacional. Mas a morte da filha ainda era uma sombra que obscurecia a sensação de vitória profissional.

O Monumento a Sibelius, da escultora finlandesa Eila Hiltunen (1922-2003), construído com mais de 600 tubos ocos de aço inoxidável, foi inaugurado em 1967, em Helsinque, Finlândia. A obra pertence ao Museu de Arte de Helsinque.


Com a ajuda financeira de admiradores, Sibelius decidiu então procurar algum consolo em uma viagem com a família a Rapallo, na costa mediterrânea, passando primeiro vários meses em Berlim, onde sua obra havia sido tão bem recebida. Foi em Rapallo que começou a esboçar a Sinfonia nº 2, completada em 1902. A estreia, em março daquele ano, foi um autêntico triunfo. Talvez seja pela lembrança da Itália que essa obra soe mais robusta do que a primeira, mais cálida, de certa forma mais confortável ao ouvido e à alma. Alternadamente viril, pastoral, introspectiva, é também audaciosa, até mesmo na escolha de um motivo de três notas ascendentes que domina toda a obra e do qual se desenvolvem organicamente todos os gestos. Os finlandeses a receberam como um grito de revolta contra a opressão russa e a sinfonia passou a ser conhecida como Sinfonia da Libertação.

 

Como um quebra-cabeça, o primeiro movimento consegue criar, de pequenos trechos fragmentados e aparentemente disformes, uma imagem lógica, forte e homogênea. O segundo movimento se abre com o rufar do tímpano sobre cordas em pizzicato, uma sonoridade inquietante da qual emerge o solo de fagote, como um animal que procura a saída de uma caverna labiríntica. O desenvolvimento é lírico e cantabile, mas não conseguimos encontrar aqui um momento de paz definitiva. Nessa sinfonia, como na primeira, o scherzo não é propriamente brincalhão, mas sim  denota um senso de urgência. Rápido, quase frenético, exibe os sopros como solistas de uma melodia dolorosa e pungente, que acaba levando

diretamente ao finale, impregnado de um clima medieval, remontando o quebra-cabeça com diligência e poder, até que a solução nos aparece em toda a sua majestade e glória, num final triunfante e confortador.

Aino (1871-1969) e Jean Sibelius com as filhas Heidi, Margareta e Katarina na sala de jantar da casa próxima ao lago Tuusula, cerca de 40 quilômetros ao norte de Helsinque, 1915.


Em 1903, nasceu a quarta filha de Sibelius, Katarina. O compositor tentava administrar o crescente sucesso profi ssional e o temperamento instável, que adicionava ao alcoolismo a tendência de gastar dinheiro sem qualquer planejamento, o consumo exagerado de remédios e as noitadas com amigos. Em 1904, a mudança para uma casa próxima ao lago Tuusula, que viria a ser a moradia definitiva da família, foi uma medida  tomada para fugir das tentações de Helsinque. Data também desse ano o Concerto para Violino.

 

Apesar de ter começado os estudos musicais pelo piano, como adolescente Sibelius se encantou pelo violino, que, como sabemos, chegou a dominar admiravelmente. Não é surpreendente, portanto, que escreva para o violino com intimidade evidente e que explore em sua partitura um universo de efeitos e sonoridades. O Concerto em Ré Menor é um dos mais difíceis para o instrumento e um favorito de plateias no mundo todo. Muitas razões justificam tal popularidade: o virtuosismo instrumental que requer, além de técnica refinadíssima, um temperamento apaixonado; a riqueza da invenção melódica; o rigor da construção formal; a variedade do colorido orquestral; a grandiosidade deliberada; e o traço evocativo, dramático, que traz à mente imagens de estepes glaciais, cheias de abismos, terrenos escorregadios, lobos famintos e perigos de toda sorte.


A música é organicamente construída, sem seguir o formato padronizado da forma sonata, e elabora lenta e meticulosamente os motivos que crescem e se aglutinam como um tecido lógico, em crescendo emocional que cria impacto inescapável. Em que pese a escrita mais sombria do acompanhamento, ao violino e à orquestra são dados materiais igualmente importantes e assim se estabelece um cunho verdadeiramente sinfônico, sem nada da leveza habitual das partes orquestrais de concertos. A peça caminha de tenso drama existencial, com uma cadência estendida ocupando a maior parte do movimento central, para o caráter escancaradamente cigano, quase paganiniano do terceiro, uma polonaise cheia de fogos de artifício e sensualidade, em progressão que parece tão natural que em nenhum momento sentimos que o virtuosismo é um fim em si mesmo.

 

Sibelius e a mulher, Aino, no jardim de casa, 1945.

Depois de uma estreia recebida com simpatia, mas não entusiasmo, em parte por falha do solista, que não estava à altura da partitura, em parte pela escassez do tempo de ensaio, Sibelius fez várias revisões que visavam uma depuração das ideias e que resultaram no concerto que se conhece hoje. Para muitos, é possível identificar na música circunstâncias da própria vida do mestre, que no momento da criação da obra já era aclamado como o grande compositor de seu país, tinha vida bastante confortável e casamento estável, mas ao mesmo tempo sofria com a tendência à melancolia, refletida na bebida e na insolvência financeira que causavam preocupação à família e aos amigos. O concerto se desenvolve sobre bases formais e harmônicas sólidas, mas é permeado de uma tensão constante, de angústia e instabilidade que fazem com que, apesar do brilho e da exuberância excitante, chegue perto da alegria, mas nunca a atinja verdadeiramente.

 

Uma nova estadia em Berlim serviu para que Sibelius estreitasse a amizade com Ferrucio Busoni e travasse contato com inúmeras obras que o marcaram profundamente, como a Sinfonia nº 5 de Mahler, os Noturnos de Debussy e Ein Heldenleben [Uma Vida de Herói] de Strauss [esta última também na Temporada 2022 da Osesp]. Foi em Berlim que ele assinou um contrato com a editora de Robert Lienau, que prometia lhe trazer a segurança financeira tão almejada. Agora Sibelius não precisava mais se preocupar em construir um nome e se mantinha bastante ocupado com encomendas de várias fontes, tanto mais que precisava pagar suas dívidas, que se acumulavam assustadoramente. Um importante compositor inglês da época, Granville Bantock, convidou Sibelius a visitar a Inglaterra e lá o acolheu com generosidade. Foi para essa visita à Inglaterra que Sibelius escreveu a Sinfonia nº 3, que teria sua estreia regida pelo próprio Bantock.

 

Há uma década, o maestro estoniano Neeme Järvi declarava: “Tudo em suas Sinfonias é ainda tão fresco e novo. Ele mudava tanto de sinfonia a sinfonia. É difícil acreditar que o mesmo compositor que escreveu a Segunda também escreveu a Quarta”.⁴ A Terceira também não parece a continuação lógica das duas primeiras e, talvez, por ir contra as expectativas gerais, não fez o sucesso imediato alcançado pelas anteriores. Menos romântica e mais breve do que ambas, mais contida, com textura transparente, ela é também bem-humorada e leve, parecendo querer se livrar do manto de drama e melancolia que até então cobria a música do compositor. É como se ele buscasse deliberadamente se afastar das sinfonias grandiosas e excessivamente buriladas, escritas para orquestras imensas, que eram a voga entre os compositores mais cerebrais da época, e se voltasse para os mestres clássicos que suscitavam sua admiração. Como a Sinfonia Clássica de Prokofiev, a Sinfonia nº 3 de Sibelius fala mais diretamente aos sentidos e explora os elementos que trazem homogeneidade e coesão ao todo. Seus movimentos são conectados organicamente, praticamente sem quebras,

um brotando do outro, em fluxo constante. O terceiro e quarto movimentos habituais nas sinfonias acabaram fundidos em um só, que une scherzo e finale. Mesmo as variações de andamento soam naturais, inevitáveis.


Se as duas primeiras Sinfonias refletiam a inspiração nas paisagens nórdicas, na terceira Sibelius se interessa pela  própria ideia da música folclórica. A sensação é de mergulho nas origens, no campo, na terra. Mas essa música camponesa tem um caráter de linguagem universal: não é necessariamente uma raiz finlandesa que está sendo parafraseada. Poderia ser russa, germânica, nórdica. O que importa é que somos levados imediatamente a imaginar uma celebração camponesa, cheia de dança, de vida e de cor, mas ainda assim embebida na atmosfera peculiar que caracteriza toda a música de Sibelius.

 

Desde o primeiro movimento, são evocadas danças campestres, mas que se desenvolvem de maneira pouco usual: as resoluções demoram a chegar, as síncopes são abundantes e perguntas lindamente formuladas pelos sopros são respondidas por violinos com a corda sol solta, imitando assim a sonoridade típica das rabecas. É música que sob a aparente rusticidade esconde sutilezas e refinamento.

 

Os críticos contemporâneos e mesmo o público não receberam bem esse desenvolvimento, que entendiam como um retrocesso: decepcionados, lamentavam a redução da estrutura composicional, assim como a perda da nobreza e dos extremos de paixão que associavam ao compositor e que acabaram por pressupor serem sua marca registrada. Seus colegas se mostraram perplexos com essa obra tão comedida, destoante das outras. Em São Petersburgo, onde foi apresentada, a recepção também foi tíbia. E mesmo os ingleses, que haviam estimulado sua composição, reagiram com bastante indiferença à sua audição, no início de 1908.

 

Durante anos, a Sinfonia nº 3 foi considerada uma peça de transição, que prenunciava as sinfonias subsequentes, supostamente mais ambiciosas. Da nossa perspectiva hoje, a decepção parece inexplicável, já que, talvez até mesmo por seu maior despojamento, essa sinfonia nos soa muito palatável, aproximando-se em espírito das obras orquestrais de Antonín Dvorák, compositor que sempre assumiu a intenção de agradar ao ouvido e que morrera fazia pouco, em 1904. Mas, com o passar do tempo, a opinião pública já não era mais tão severa. Chegando aos anos 1970, Harold Truscott afirma:


As duas primeiras sinfonias são muito mais do que preliminares; no entanto, elas são uma preparação. Ainda
se tem a impressão de que o domínio completo começa realmente com a Terceira Sinfonia [...]. Há desordem e hesitações nas duas primeiras, bem como alguma confusão sobre o conteúdo, mas da nº 3 em diante, tudo isso  desaparece. Sibelius sabe exatamente o que está fazendo e por quê. A Terceira Sinfonia é uma conquista positiva e a chave para tudo o que se seguiu.⁵


A visão de Truscott é perspicaz e leva em conta o arco artístico da obra de Sibelius, que abre mão das soluções fáceis, testadas e impactantes, partindo do grandiloquente para se tornar cada vez mais esparsa, econômica, severa e concentrada. Muitos compositores começam a carreira esperando quebrar padrões e, à medida que se encaixam no establishment, suas obras se tornam mais convencionais ou, pelo menos, mais facilmente compreensíveis para a plateia, que vai se acostumando àquela nova gramática. Sibelius parece ter percorrido o árduo caminho inverso, em obras cada vez mais introspectivas que se preocupam com o essencial.

 

As obras da juventude têm um ímpeto atormentado, uma exuberância de virtuosismo e fogo; já a música da maturidade vai se tornando mais audaciosa, mais estranha, dissonante, espartana e pessoal até calar por completo.Talvez a ausência de som fosse, afi nal, a depuração máxima, aquela sonoridade cristalina e pura que o compositor tanto desejava. Suas últimas obras orquestrais datam da década de 1920. Richard Taruskin comenta:


Sibelius viveu mais 33 anos após completar a Sétima Sinfonia, até chegar aos 91 anos, uma longevidade incrível,  considerando seu abuso de álcool e tabaco ao longo da vida. Mas não houve mais sinfonias e, depois do último poema sinfônico em 1926, nem uma única obra importante. O silêncio de esfinge parecia o resultado de uma trajetória inexorável. Sibelius agora assomava não apenas como um monumento nacional finlandês, mas como a própria personificação do Norte — severo, gelado, inescrutável, disciplinador.⁶

 


Nunca saberemos quais circunstâncias ditaram o longo silêncio do compositor, que, nas últimas três décadas de vida, resolveu não mais se aventurar no complexo universo da música sinfônica. Mas, ainda que ele não tivesse escrito nada além das sete sinfonias que conhecemos, seu lugar na história da música já estaria plenamente assegurado. Em sua música orquestral, Sibelius nos convida a renunciar a nossos preconceitos e não apenas a conhecer um mundo novo, mas principalmente a observar o mundo antigo com novos olhos, que descortinam uma miríade de facetas simultâneas, que vão
de desesperada tristeza à frieza mais desconcertante, unindo o rigor de construções milimetricamente planejadas a uma organicidade expansiva e envolvente.

 

____

 

1. DOWNES, Olin. Jean Sibelius. In: THOMPSON, Oscar; SLOMINSKY, Nicolas (ed.). The International Cyclopedia of Music and Musicians. New York: Dodd, Mead & Company, NY: 1938.

 

2. ROTHMAN, Philip. An Interview With Ben Finn, Co-founder of Sibelius [Part 1 of 2]. Scoring Note, 23 June 2015. Disponível em: https://www.scoringnotes.com/news/an-interview-with-ben-finn-part-1. Acesso em: 26 jan. 2022.


3. Comunicação em correspondência pessoal com a autora.

 

4. SERVICE, Tom. Rediscovering the Spirit of Sibelius. The Guardian, 12 Dec. 2011.

 

5. TRUSCOTT, Harold. Sibelius. In: SIMPSON, Robert (ed.). The Symphony: Elgar to the Present Day. Harmondsworth: Penguin Books, 1967.

 

6. TARUSKIN, Richard. Music in the Nineteenth Century. New York: Oxford University Press, 2010.

 

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