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ENSAIOS
Sibelius: uma visão do futuro
Autor:Entrevista de Thierry Fischer a Arthur Nestrovski
30/jun/2022

Thierry Fischer nos arredores de Montpellier, França.

Com a Osesp, o Diretor Musical e Regente Titular da Orquestra, Thierry Fischer, quer explorar a complexidade, o mistério e a modernidade da música de Jean Sibelius.

 

Para a nossa geração, quando éramos estudantes de música, Sibelius (1865-1957) não chegava a ser muito popular com o público, e também não era acolhido pelos estudantes avançados de música ou críticos progressistas da área. Ele era tido como um compositor conservador e anacrônico. Mas esse conceito mudou muito nas últimas duas ou três décadas. Por que você acha que isso ocorreu?

 

Respondendo instintivamente: acredito que seja pela autenticidade em resistir ao modo convencional de escrever música. Sua escrita é muito especial e, por vezes, um tanto incompreensível. Ele começa como um homem solitário, no fim do século XIX, e, anos depois, é um novo compositor, caminhando para o Modernismo. A transformação é muito mais clara e visível em Sibelius — desde a Primeira Sinfonia até a última — do que em Brahms e Tchaikovsky, por exemplo. Enquanto outros compositores seguem usando praticamente a mesma linguagem, Sibelius é imprevisível. Não sabemos para qual caminho ele nos levará em sua próxima Sinfonia. Eu diria que Sibelius tem uma audácia latente, que contribui para ele ser esse compositor tão singular.

 

E por que Sibelius foi selecionado para o ciclo "Escolha do Maestro"?

 

Primeiramente, devido à ideia de abordar o Modernismo na Temporada da Osesp [em 2022]. E, por coincidência ou não, ele acaba sendo parte desse movimento, como disse anteriormente. Ele escreve suas Sinfonias ao longo de quase 25 anos, a partir de 1898, e o mistério que paira em suas composições é o que mais me atrai. Suas peças são impenetráveis. É necessário muito empenho para compreendê-las. Não têm uma forma clara, são futuristas. Então, o motivo para minha escolha é que sua música é uma visão do futuro. Digo isso porque ele nos leva para o futuro — não de forma clara, mas como se houvesse uma intervenção em nossas mentes, algo perturbador. Quando se ouve Sibelius, há um incômodo de início, um desconforto, mas logo o público é tomado por suas composições e pelo mistério que elas carregam, mas não é algo óbvio. Então, o traço enigmático e a temática do Modernismo trouxeram Sibelius para meu segundo ciclo com a Osesp [o primeiro foram as Sinfonias de Beethoven]. A intenção é descobrir e desbravar a complexidade desse repertório com os músicos da Orquestra. E espero que seja um símbolo do que gostaríamos de alcançar juntos.

 

Qual a importância de Sibelius, técnica e musicalmente, para a orquestra?

 

O que o regente pede para a orquestra no trabalho com Beethoven ou Brahms é circunscrito a um território conhecido: os músicos conhecem as notas, as melodias, as formas e reagem ao que sabem ou imaginam que sabem porque está no DNA deles. Com Sibelius é simplesmente impossível ter esse tipo de reação ou de troca. É como se alterássemos a disposição da orquestra — em nossas mentes. O que ele faz conosco é misturar tudo, de um modo novo, e então temos que trabalhar intensivamente para que sua música possa emergir. É um trabalho complexo e vai ser incrível encarar esse desafio com a Osesp. Sinto que conheço mais a Orquestra agora; e é muito instigante pensar nessa demanda para a próxima Temporada, sem falar na minha atração por tarefas impossíveis. Esse tríptico — Osesp, uma orquestra sul-americana; Sibelius, um compositor finlandês, do Norte do planeta; e eu, um regente suíço, que fica entre as duas culturas — é uma junção estranha, mas muito especial.

 

Dentre suas inspirações para compor, a paisagem nórdica é a mais famosa, mas não podemos esquecer os mitos finlandeses. São influências tão distantes da realidade da Osesp! O conceito “menos é mais” seria uma boa definição para o que viveremos com esse ciclo. São paradoxos, contrários, que podem criar milagres. Sibelius é conhecido por criar milagres musicais através de sua vulnerabilidade, de sua escrita meditativa e por traduzir questionamentos íntimos em música. Ele traduz tais questionamentos internos com uma profundidade que causa estranhamento a quem ouve suas peças, é quase doloroso, porque movimenta aspectos pessoais que talvez não se queira encarar. Ter a oportunidade de tocar Sibelius por sete semanas [não consecutivas, ao longo de dois anos], equivalentes às suas sete Sinfonias, nos trará uma bagagem técnica e emocional intensa, principalmente em nossa identidade sonora.

 

A escultora finlandesa Eila Hiltuner

criando os relevos no busto de Sibelius, 1967.

Você poderia descrever, brevemente, a sua percepção de cada Sinfonia que a Osesp irá tocar em 2022 e do Concerto para Violino, que abrirá a Temporada?

 

A Primeira Sinfonia é muito acessível. Há influências russas, de Borodin e Tchaikovsky, mas também alemãs, de Bruckner. É uma sinfonia bastante mística — Sibelius era místico, na intimidade, e carregava isso para suas composições; pouco antes de sua Terceira Sinfonia, ele se mudou de Helsinque para o campo, pois dizia que a cidade estava “drenando sua alma”. Há também a tragédia já na música, sem palavras ou literatura.

 

A Segunda é um choque, uma obra iluminada. Foi um triunfo ao ser criada, uma raridade. Mergulha no inconsciente mais profundo, mas de modo tão luminoso! Em algumas passagens, como no segundo movimento, é também um protesto, mas sem chance alguma de vencer a luminosidade triunfal. Como Sibelius disse, nessa Sinfonia, é como se milagres fossem possíveis.

 

Já a Terceira significa um novo passo para ele. Marca sua mudança para o campo, como falei há pouco. Alguns dizem que é sua Sinfonia Pastoral, porque há um idealismo e uma adoração — quase inocente — da natureza. É uma Sinfonia feita para abordar a natureza.

 

Quanto ao Concerto para Violino, gostaria de enfatizar o uso de elementos folclóricos em sua composição, especialmente no último movimento. O segundo é caracterizado por aspectos do final do Romantismo, mas o impressionante aqui nem é a música em si, mas o controle da técnica do instrumento [violino], que cria um estado permanente de alerta para quem está ouvindo. É preciso um solista de altíssima qualidade para criar esse ambiente e para tocar essa peça. Felizmente, teremos Tedi Papavrami conosco em 2022. Em duas palavras: é um Concerto único.

 

Entrevista a Arthur Nestrovski. Transcrição e tradução de Gabriela de Souza, Assessora Artística da Fundação Osesp.

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