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ENSAIOS
A construção da modernidade nos balés de Stravinsky
Autor:Entrevista de Thierry Fischer a Arthur Nestrovski
21/mai/2021

Thierry Fischer rege a Osesp, em 2020

 

Thierry Fischer, Diretor Musical e Regente Titular da Osesp, tem regido A Sagração da Primavera quase anualmente nas últimas duas décadas. A modernidade dos balés de Stravinsky simboliza sua perspectiva de trabalho com a orquestra.

 

Vamos começar do começo: você se lembra da primeira vez que ouviu A Sagração da Primavera?

Foi ao vivo, com a Orchestre de la Suisse Romande regida por Wolfgang Sawallisch [1923-2013, Diretor Artístico e Musical dessa orquestra entre 1970-80], de quem era grande admirador. Já estudava flauta, devia ter 14 anos, mas me lembro com clareza. Não pude acreditar: não tinha ideia do que era! Foi como ser confrontado com uma estátua gigantesca.

 

E quando a tocou pela primeira vez?

Também me lembro bem: foi com a Orquestra da Ópera de Hamburgo, na Alemanha (onde fui Primeira Flauta por alguns anos — foi meu primeiro emprego), sob regência de Christoph Eschenbach [n. 1940]. Era uma orquestra de ópera, tocávamos todas as noites sem ensaio. Ao longo da Temporada, havia também cerca de 12 concertos sinfônicos, que adorávamos pois, aí sim, podíamos ensaiar. Mas, nessa ocasião, o maestro ficou preso em Londres: tivemos apenas uma sessão com ele! Além da Sagração, o programa tinha também a Sinfonia nº 5 de Mendelssohn. Preciso dizer que correu tudo bem! A orquestra ficou muito concentrada.

 

Finalmente: quando você regeu essa peça pela primeira vez?

Foi em Amsterdam, com a Orquestra do Conservatório de Amsterdam (então Conservatório Sweelinck). Propus um desafio, pois acredito que os estudantes precisam fazer coisas que creem serem impossíveis para se desenvolverem. Tivemos algo como 10 ou 12 ensaios e nos apresentamos no Concertgebouw! Foi maravilhoso: pude trabalhar com os naipes, analisar a música, contar histórias sobre a obra. Foi como um batismo para mim — trabalhei tanto nessa peça que desde então posso regê-la de imediato a qualquer momento. E tenho feito isso regularmente em quase todas as temporadas nos últimos 18 anos — a última vez foi com a Royal Philharmonic, logo depois de reger a Missa Solemnis [de Beethoven] com a Osesp [em março de 2020, uma semana antes do fechamento da Sala devido à pandemia].

 

E sua interpretação mudou ao longo desses 18 anos?
Sim. Algumas coisas para melhor, outras nem tanto. Do lado positivo, a peça me assusta menos. Mas isso, na verdade, não é bom: o verdadeiro desafio é descobrir a obra a cada vez que se rege uma peça tão icônica. É bom ter um certo medo, pois nos preparamos mentalmente: tomo meu café da manhã de forma diferente se vou reger a Sagração da Primavera à noite. Minha interpretação certamente evoluiu e consigo sentir — tanto quanto possível — que tenho controle sobre a peça. Mas a beleza está, justamente, no que não podemos controlar. Tudo nessa obra tem a ver com andamento e conexão entre as partes — e, nesse sentido, ela é muito diferente de Petrouchka ou O Pássaro de Fogo.

 

Desenho de Léon Bakst do figurino de "O Pássaro de Fogo", de 1915

Você pode comentar essas diferenças entre obras escritas em épocas tão próximas?

Esses três balés e, simbolicamente, os três anos em que foram criados — 1911, 1912 e 1913 — significaram o surgimento de uma grande modernidade no século. E com três compositores diferentes: à mesma época, Debussy compôs Jeux e, Schoenberg, Pierrot Lunaire. Para mim, começar a Temporada com o símbolo da modernidade no século XX significa materializar o desejo do que quero fazer com a Osesp: ser inovador, abrindo caminhos em relação às formas de tocar e olhar adiante. Embora saiba que tudo correrá bem, conhecendo todo o trabalho da Direção Artística nos últimos dez anos, eu acredito muito em símbolos!

 

Também considero importante ter as três obras de Stravinsky em sequência, na ordem em que foram criadas, pois elas expressam um desenvolvimento histórico da modernidade. O Pássaro de Fogo é bastante romântica, quase como um conto de fadas — Stravinsky tinha apenas 27 anos! Depois, Petrouchka é uma música mais realista, um divisor de águas — quase como o início do expressionismo: totalmente antirromântica! E, então, A Sagração da Primavera, em que há mais uso do ritmo, no sentido dos ritmos telúricos.

 

Além disso, podemos fazer um paralelo com o período atual: A Sagração foi escrita um ano antes da Primeira Guerra Mundial. É como se a criatividade musical precisasse se solidificar, para sobreviver, antes de uma guerra dramática. A pandemia, como uma guerra, nos impediu de tocar por muito tempo.

 

Os Balés Russos, criados por Diaghilev, foram uma das primeiras instituições a conceber espetáculos integrados com dança, música e cenário. Antes de consultar Stravinky para escrever O Pássaro de Fogo, Diaghilev havia convidado Rimsky-Korsakov, que não pôde se comprometer com o projeto. Stravinsky foi seu substituto! Ele foi a todos os ensaios e trabalhou com os dançarinos. Na obra, construiu dois universos: de um lado, o mal, representado pelo mágico Koschei e, do outro, o bem, materializado no pássaro e na forma como ele é usado pelo príncipe. A linguagem musical é suntuosa e encantadora, no sentido de encantar — o que acarretou o sucesso imediato da obra, algo raro à época (sabemos da recepção da Sagração, dois anos depois...).

 

Outro elemento responsável pela boa aceitação da peça — e que me atrai toda vez que a rejo — foi o uso do folclore russo. Stravinsky incorporou essas melodias de uma forma romântica, melancólica. Além disso, o processo de manutenção da energia é impressionante: nos 20 minutos iniciais, tudo é mais suave, como fragmentos de poemas que se sucedem. Criar e manter essa energia, que explode no final e sempre provoca aplausos imediatos, é um paroxismo.

 

Petrouchka, um ano depois, já tem outro caráter! A história é escrita de outra maneira, com a sucessão de imagens — como em Quadros de uma Exposição [de Mussorgsky]. A forma de usar as melodias também é outra, elusiva. É uma obra dramática, com emoções fortes associadas ao boneco [personagem principal], que morre de forma tão trágica... e a obra termina suavemente, com pizzicatos! (Risos).

 

E então... ele vai para a Suíça!

Sim, ele escreveu a maior parte da Sagração na Suíça, na pequena cidade de Clarens, a menos de 100 quilômetros de onde moro. Trata-se de um grande ritual — a diferença fundamental em relação às outras peças é o olhar telúrico e implacável sobre o ritmo. Aqui há apenas uma ideia: o mistério da emergência do poder criativo da primavera. Não há enredo, apenas a adoração da Terra, o que é lindo.

 

Trabalhar essa peça por uma semana com a orquestra — e as três obras em três semanas – permitirá desenvolver o que iniciamos com Beethoven (infelizmente, não da forma como gostaríamos, mas que foi muito dentro das possibilidades). Estou convencido de que uma instituição só pode caminhar a passos largos com “choques” de três ou quatro semanas. Na minha vivência pessoal, me marcou muito ter tocado Beethoven com Harnoncourt por três semanas — lembro tudo, até de como ambos estávamos vestidos. Gostaria de provocar a mesma experiência na minha relação com os músicos da Osesp, no início da Temporada, para que tenhamos isso em mente quando tocarmos Rossini, Varèse, Debussy ou Rachmaninov.

 

Voltando à Sagração. Como disse, à mesma época, Debussy estava compondo Jeux, que também explora novas possibilidades rítmicas. Uma semana antes da estreia da Sagração, Debussy e Stravinsky se encontraram em Paris e leram a redução para piano a quatro mãos [feita pelo próprio compositor], à primeira vista. Terminada a leitura, Debussy ficou sem palavras, estupefato. Dá para imaginar os dois tocando essa obra, em um antigo piano Pleyel?!

 

Claude Debussy (em pé) e Igor Stravinsky, por Erik Satie, em 1915

 

E suas outras obras?

As pessoas que não gostam de Stravinsky normalmente dizem que há pontos fracos em sua produção, como o período neoclássico... Para mim, ao contrário, ele é um gênio que transitou em diferentes estilos — e imprimiu em todos eles sua marca pessoal. Também são maravilhosas as obras da última fase, como In Memoriam Dylan Thomas, e as pequenas peças. É como se fosse um novo compositor. Sua trajetória é muito inspiradora para regentes orquestrais: é um mundo de cores, um arco-íris.

 

Gostaria de adicionar algo mais: me sinto muito próximo a Stravinsky, por várias razões. Ele viveu na Suíça, perto de onde moro. Foi amigo de escritores suíços, como [Charles Ferdinand] Ramuz [1878-1947], que escreveu o texto de A História do Soldado. Era próximo de Ernest Ansermet [1883-1969], famoso regente suíço que fundou a Orchestre de la Suisse Romande. Além disso, regeu muitas vezes na América do Sul, nas frequentes turnês dos Balés Russos nas três primeiras décadas do século XX. É como quando lemos um livro e nos identificamos com o autor: para mim, Stravinsky está conectado à cultura suíça, aos exemplos icônicos da música suíça, à região onde moro... e, agora que estou com vocês na Osesp, também à experiência de reger na América do Sul! Não me surpreende que eu goste tanto de sua personalidade e de sua música, além de me inspirar muito em cada peça que ele compôs.

 

 

Entrevista a Arthur Nestrovski, edição e tradução de Júlia Tygel

 

 

GRAVAÇÕES RECOMENDADAS

 

Stravinsky: Concerto for Piano and Wind Instruments; Pétrouchka
Osesp
Yan Pascal Tortelier, regente
Jean-Effl am Bavouzet, piano
Chandos, 2015

 

Boulez conducts Stravinsky
The Cleveland Orchestra; New York
Philharmonic
Pierre Boulez, regente
CBS, 1987

 

Stravinsky / Stokowski: The Rite of Spring; Bach Transcriptions
The Philadelphia Orchestra
Yannick Nézet-Séguin, regente
Deutsche Grammophon, 2013

 

Acervo Russo:Stravinsky
[gravações históricas]
Filarmônica de Leningrado
Mravinsky e outros, regentes
Biscoito Fino / Dell’Arte, 2011

 

Rite: Stravinsky/ Revueltas
Símon Bolívar Youth Orchestra
Gustavo Dudamel, regente
Deutsche Grammophon, 2010

 

Stravinsky: Ballets
Royal Concertgebouw Orchestra
Riccardo Chailly, regente
Decca, 2003
[2 CDs]