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ENSAIOS
Universos infinitos
Autor:Entrevista de Esteban Benzecry a Arthur Nestrovski
17/mai/2021

O argentino Esteban Benzecry, Compositor Visitante desta Temporada, conta como une, em sua música, a inspiração em tradições latino-americanas a cores orquestrais francesas.

 

Vamos começar pelo Concerto, estreado em 2019 com a Filarmônica de Los Angeles: o que está por trás do título Universos Infinitos?

O título do concerto tem a ver com o homem e a sua conexão com seus universos interiores e exteriores, num mundo anterior à nossa civilização, onde os tempos eram regidos pelos ciclos planetários e agrícolas. Em minhas obras não pretendo fazer etnomusicologia, mas sim tomar raízes, ritmos, melodias e mitologias da América indígena como fonte de inspiração para desenvolver meu próprio estilo, alimentando-me dessas raízes e da música contemporânea ocidental. Crio assim uma linguagem cheia de folclore imaginário, na qual também predomina a presença da natureza, mediante sons em que se percebem os elementos minerais, vegetais, aquáticos e aéreos: uma pintura mural ecológica.

 

Neste concerto há três movimentos: “Um Mundo Interior” descreve a percepção dos universos ancestrais, tanto o cósmico quanto o interior, sem apelar para o descritivo, tentando criar atmosferas evocadoras dos diferentes estágios da pessoa. “Ñuke Kuyen” significa “Lua Mãe”, que dirige o fluxo das águas e o espírito feminino, protetora dos sonhos e testemunha da constante luta dos mapuches, um povo ameríndio que habita o sul do Chile e da Argentina. Eles se reconhecem como descendentes do pó das estrelas. Este movimento tem uma instrumentação onírica em que, graças à utilização de sons harmônicos, multifônicos, quartos de tons e diferentes tipos de sons dos instrumentos de sopro, simulamos as sonoridades de instrumentos de sopro autóctones, como a quena, o sikus e o erke mapuche. “Toccata Willka Kuti” (em aimará: “O Retorno do Sol”) alude à festividade do Ano Novo e do novo ciclo agrícola, coincidente com o solstício de inverno no Hemisfério Sul, em 21 de junho, simbolizando o retorno do Sol.

 

E Wirin?

Wirin é um termo da arte têxtil mapuche, que significa risca de cor, um caminho. De modo geral, wirin é constituído de faixas bem definidas, franjas que correm em sentido vertical e representam linhas, ou trilhas, por onde transcende a vida. Suas bordas são imperfeitas porque não se trata de caminhos feitos pelo homem, mas de trilhas naturais, com acidentes geográficos ou “cósmicos”. Em geral, o wirin vertical é um desenho usado em ponchos, sozinho ou como moldura de desenhos mais complexos.

 

Nesta obra, a harmônica como voz solista representa o ser que percorre diferentes trilhas da vida, através de diferentes paisagens imaginárias representadas pelo quarteto de cordas. As sonoridades do indivíduo reverberam ao longo de contrastantes acidentes geográficos e ressonâncias que, em alguns momentos, recordam as sonoridades típicas do folclore argentino, como o lamento da baguala na vidala,a melancolia do bandoneón no tango, além da energia e a alegria dos ritmos do malambo e do carnavalito.

 

Wirin nasceu graças a uma encomenda do Quarteto Gianneo, que a estreou em 24 de novembro de 2018 no auditório da Rádio Nacional de Buenos Aires, tendo como solista Franco Luciani, a quem a obra é dedicada.

 

Vivendo há muitos anos fora da Argentina, na França, você ainda se considera um compositor argentino, ou esta classificação não se aplica à sua música?

Embora a música seja uma linguagem universal e, portanto, eu considere que cada compositor é seu próprio universo, creio que musicalmente sou muito argentino ou latino-americano. Minha paleta orquestral é muito francesa, mas ao mesmo tempo tem a força rítmica de um sul-americano. Meu maior desejo é que as pessoas possam reconhecer em mim um estilo pessoal.

 

Muitas vezes, neste mundo de etiquetas, quando me perguntam nas entrevistas como descrevo minha música, me sinto obrigado a mencionar como referências compositores como Ginastera, Villa-Lobos ou Revueltas, entre outros, que integraram à sua música raízes folclóricas, ritmos, danças, melodias, mitologia — não com a intenção de fazer etnomusicologia, porém, de maneira intuitiva, tomando-as como fontes de inspiração, para desenvolver sua própria linguagem, em fusão com os procedimentos da música acadêmica contemporânea.

 

Eu poderia ser considerado, talvez, como um continuador dessa linha conhecida como “folclore imaginário”; mas, como compositor de nosso tempo, minhas influências também são outras. Na minha música também há uma paleta orquestral e uma busca de timbres muito francesa. Em minhas últimas obras há harmonias influenciadas pela música espectral e também há minimalismo.

 

O curioso é que, sendo eu latino-americano, muitas vezes me vejo justificando-me, como se o fato de integrar essas raízes folclóricas fosse algo de exótico, algo de alheio a nós, quando na realidade está em nosso DNA.

 

Piazzolla, homenageado em nossa Temporada, foi importante na sua formação?

Piazzolla faleceu quando eu tinha 22 anos, e poucos meses depois prestei uma homenagem a ele compondo Obertura Tanguera, uma de minhas primeiras obras, por encomenda da Orquestra Carlos Chávez, no México. Embora eu sempre tenha me sentido mais próximo da música de Alberto Ginastera, que também teve como fonte de inspiração o folclore de nosso continente, acho que a música de Piazzolla tem exercido uma importante influência sobre todos os compositores de Buenos Aires e, sempre que tentamos representar musicalmente as atmosferas portenhas, inevitavelmente se manifesta a revolução que Piazzolla representou no tango para concertos. Estas influências estão presentes em algumas de minhas obras, como o segundo movimento de meu concerto para violino, Evocación de un Tango, ou “Ecos del Sur”, um dos movimentos de minha obra sinfônica coral De Otros Cielos, Otros Mares...

 

E o quanto a experiência na França, por seu lado, influencia sua criação — e de que modo?

Sempre gostei muito da música francesa, mas os anos que tenho vivido em Paris fizeram com que meu contato com a música de compositores como Messiaen e Dutilleux, além da música espectral, enriquecesse minha paleta orquestral. Também creio que meu breve contato com a música eletroacústica, em meu tempo de estudante, abriu meus ouvidos para querer buscar outras sonoridades com a orquestra.

 

Se tivesse que fazer uma lista de seis obras de sua própria autoria, quais seriam elas?

Rituales Amerindios, Colores de la Cruz del Sur, Madre Tierra, Concierto para Violin, Ciclo de Canciones para Soprano y Orquesta e Garasha, uma mono-ópera.

 

Qual sua relação com o Brasil? Já esteve no país, conhece São Paulo? Qual sua relação com a música brasileira, se é que há alguma?
Em São Paulo estive pouquíssimos dias, em 2011. Estava viajando de Paris a Buenos Aires em junho de 2011 e a erupção do vulcão Puyehue [no Chile] obrigou meu voo a aterrissar em São Paulo, onde fiquei uns quatro dias, de modo que realmente conheci muito pouco da cidade. Mas sempre fui apaixonado pela música do Brasil, seu folclore, sua natureza tão rica e sonora, que me serviram de inspiração para peças como “Amazonas”, um dos cinco movimentos de minha obra Colores de la Cruz del Sur. Também me sinto muito identificado com a música de Villa-Lobos, que, assim como Ginastera, incluiu as raízes folclóricas em suas músicas, mas dentro da busca de um estilo pessoal.

 

A pandemia complicou tudo, claro, mas quais seus projetos atuais de criação e o que mais gostaria de compor, idealmente?

Durante a pandemia compus uma ópera de câmara, Garasha, que estreou em Quioto, no Japão, em novembro. Foi uma obra concebida num formato ideal para tempos de pandemia. E acabo de terminar uma obra que me foi encomendada pela Orquestra da Filadélfia. Gostaria de compor outra ópera, mas de grande formato, com vários cantores, coro e orquestra.

 

 

1 N.d.E.: Baguala e vidala são gêneros musicais andinos, que com frequência ocorrem interligados. Enquanto a baguala é geralmente cantada a solo, em andamento lento, a vidala é responsorial e um pouco mais rápida. Ambas costumam ter acompanhamento instrumental de violão e caja, um tipo de tambor.

 

 

Entrevista a Arthur Nestrovski e tradução de Marcos Bagno
 

 

GRAVAÇÕES RECOMENDADAS

 

Esteban Benzecry: Ciclo de Canciones; Violin Concerto; Clarinet Concerto
Lviv National Philharmonic Symphony
Orchestra [Ucrânia]
Pablo Boggiano, regente
Ayako Tanaka, soprano
Xavier Inchausti, violino
Mariano Rey, clarinete
Naxos, 2020

 

Esteban Benzecry: El compendio de la vida; Obertura Tanguera (homenaje a Astor Piazzolla) y otras obras

Orquesta Sinfonica Simon Bolivar [Venezuela]
Orquesta Filarmónica de Bogota [Colômbia]
Orquesta de Camara Mayo [Argentina]
Mario Benzecry, regente
Cosentino IRCO, 1997

 

Benzecry / Garrido-Lecca / Mejía / Rebagliati / Soro: Sur
Fort Worth Symphony Orchestra [EUA]
Miguel Harth Bedoya, regente
FWSO Live / Caminos del Inka / Filarmonika, 2012
[Benzecry: Colores de la Cruz del Sur

 

Lin & Castro-Balbi Duo: Rapsodia Italiana
Jesús Castro-Balbi, violoncelo
Gloria Lin, piano
[obras para violoncelo e piano de Benzecry e
outros compositores latino-americanos]
Filarmonika, 2007
[Benzecry: Rapsodia Andina]

 

Horacio Lavandera: Compositores argentinos

Horacio Lavandera, piano
Virtuoso, 2007
[Benzecry: Toccata Newen]

 

Noël Wan: The Secret Garden
Noël Wan HARPA
Independente, 2007
[Benzecry: Alwa]