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ENSAIOS
Esteban Benzecry: folclores imaginários
Autor:Martín Liut
16/mai/2021

Esteban Benzecry nos oferece um bom exemplo de como o campo da música contemporânea francesa está disposto a receber compositores estrangeiros, na quase totalidade de seu mapa musical — nesse mosaico, ele ocupa o espaço dos sinfonistas. [...] Numa entrevista durante o Festival Présences [da Radio France], em 2014, ele discorre sobre aquilo que é, antes de tudo, uma afinidade estética:

 

"Uma das razões da minha vinda a Paris foi meu apego à paleta orquestral francesa: Ravel, Debussy, Messiaen... Desde que cheguei à França, o conhecimento da música de Dutilleux e da música espectral me ofereceu muito, assim como minha rápida passagem por um curso de eletroacústica, embora eu seja mais ‘sinfônico’. Há um ‘antes’ e um ‘depois’ da minha chegada aqui".1

 

Madre Tierra é um díptico para orquestra, com duração aproximada de 24 minutos. Sua primeira parte é Pachamama (“Mãe Terra” em quíchua e aimará) e a segunda, Ñuke Mapu (“Terra Mãe” em mapuche). A obra foi encomendada pela Radio France e foi estreada em fevereiro de 2015, com a Orquestra Nacional da França. [...] O primeiro movimento integrou o concerto inaugural da Sala Sinfônica do Centro Cultural Kirchner, em Buenos Aires, e a primeira audição integral da obra foi realizada pela Orquestra Filarmônica de Buenos Aires, como parte do concerto de abertura da Temporada 2017, no Teatro Colón. Sobre este último concerto, escreveu [o crítico] Federico Monjeau: “[a obra tem] uma enganosa inspiração indigenista; enganosa porque não se baseia em fontes, mas, em todo caso, as imagina”.2 O autor distingue as características dos dois movimentos: “Pachamama é um contínuo: atmosferas mutáveis que transcorrem sobre uma espécie de pedal. Ñuke Mapu tem uma forma mais evolutiva e motivos mais marcantes. Une-os uma técnica de raiz impressionista e uma expressão sutil sem ‘golpes baixos’”.3

 

O pedal a que se refere Monjeau, como veremos, é simplesmente o produto de uma técnica de composição arquetípica do espectralismo francês. [...] Num trabalho de pesquisa, Tomás Mariani comenta que, para construir o folclore imaginário para o ritual da Pachamama, proveniente da cultura incaica, Benzecry toma como vocabulário [...] ritmos como a vidala, gestos rítmicos que podem ser relacionados a vários gêneros da região (carnavalito, tinku, sicuri e outros, com a típica fórmula de compasso ternária combinando 3/4 e 6/8);4 o uso melódico e harmônico de coleções pentatônicas, do modo menor natural ou, simplesmente, de tríades maiores; o uso da série harmônica produzindo algumas afinações não temperadas e sons próximos a instrumentos como o erke; 5 e o uso de notas pedal e ostinatos na percussão, que podem ser relacionados ao ritual. Mas este folclore imaginário põe-se em diálogo principalmente com o espectralismo, com o impressionismo, com Stravinsky e com a tradição da orquestra clássico-romântica.

 

Neste sentido, é uma continuação do que fizeram compositores como Ginastera [ou Villa-Lobos]: criaram um folclore imaginário com fragmentos e recortes do folclore de uma região, trabalhando-os com técnicas da música erudita contemporânea. Ginastera se valeu tanto de Bartók quanto de Debussy, Stravinsky e, inclusive, da segunda escola de Viena. Benzecry atualiza essa abordagem, chegando até o espectralismo. [...]

 

Outro crítico, Pablo Kohan, do [jornal argentino] La Nación, tenta sublinhar aquilo de que consiste a novidade do projeto do compositor estabelecido em Paris: sem esclarecer totalmente, afirma encontrar nele uma atualização técnica, e reivindica que seu corpus inclui, também, um número significativo de obras “abstratas”:

 

"Sem dúvida, a veia americanista que Benzecry põe em jogo deve ser um dos atrativos maiores para músicos e público. De todo modo, neste nacionalismo imaginário do século XXI, há muita novidade e nenhuma reiteração dos modos como os compositores nacionalistas do século passado levavam adiante a aventura de incluir elementos musicais concretos e lendas e mitologias próprias como base de sua criação. Daquela etapa do nacionalismo argentino e latino-americano que [o compositor argentino] Juan Carlos Paz [1897-1972] combateu com igual fervor e inteligência para abrir caminhos rumo a outras experiências compositivas —, permanecem alguns gestos e alguma ritualidade que podem remeter a Revueltas ou a Ginastera. Esteban, porém, apela a outro tipo de construções musicais, a outra referencialidade, muito mais abstrata, e a uma postura pessoal muito mais americanista do que estritamente argentina, da qual emergem outras lendas e outras mitologias. Contudo, embora esse nacionalismo não pitoresco, nem pentatônico, nem costumbrista possa ter sido uma chave para abrir as portas do planeta musical, mais da metade de sua criação não tem vinculação com nenhum nacionalismo, ainda que este se intrometa sem pedir licença, quase como uma genética imbatível e onipresente".6

 

  El Cielito, 1841, de Carlos Henrique Pellegrini. Dança tradicional argentina

Esteban é filho de Mario Benzecry, um reconhecido regente argentino, que o introduziu desde pequeno ao mundo musical. De fato, nasceu em Lisboa porque ali estava trabalhando seu pai. Embora durante a juventude tivesse hesitado em seguir esse caminho e tenha se dedicado às artes plásticas, finalmente iniciou uma carreira como compositor. Rapidamente, contou com o apoio de instrumentistas argentinos e, em seguida, internacionais, como a figura-chave do maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que programou suas obras em diversas turnês, com as orquestras do El Sistema venezuelano, pela Europa e pelos Estados Unidos.

 

Seu estabelecimento em Paris repete o mecanismo histórico de seus colegas: âmbito cultural familiar, possibilidades concretas de estudo. Ali fez moradia porque Paris se mostra uma capital cosmopolita que lhe permite interagir em nível nacional e internacional.

 

Como compreender seu interesse pelo que ele chama de “folclore imaginário” latino-americano? Segundo Benzecry, não há nada que tenha “buscado” e, se for preciso rastrear alguma origem, ela poderia se encontrar numa experiência infantil digna de destaque. Benzecry foi aluno do Instituto Vocacional de Artes, uma instituição pública da cidade de Buenos Aires na qual as crianças faziam experiências em diferentes disciplinas artísticas, mas com uma ênfase no conhecimento e nas práticas do folclore argentino e latino-americano:

 

"Não creio que, por ser argentino, tenha que fazer música americanista. Para mim, a música, por ser uma linguagem universal, permite ser criada da maneira que agradar ao compositor: por exemplo, um japonês pode escrever um tango, se quiser. Mas comigo foi assim. Me aborrece que haja críticos que querem me colocar como exemplo — algo que eu não pretendo ser, não sou militante de nada, não gosto das doutrinas e também não quero que se pense que meu trabalho é doutrinário... Cada um é sua própria ilha, seu próprio universo".7

 

 

1 LUKAS, Jean “Entre Deux Mondes: Entrevista a Esteban Benzecry”. In: La Terrasse, 27 de janeiro de 2015.
2 Federico Monjeau. “Apertura de Temporada con Luces y Sombras”. Jornal Claral (Buenos Aires), 3 de março de 2017.
3 Idem.

4 N.d.E.: A fórmula de compasso 3/4 indica que cada compasso possui três unidades de tempo, cada uma subdividida, geralmente, em dois tempos. No compasso 6/8 ocorre o contrário: duas unidades de tempo são subdivididas em três tempos cada uma.
5 N.d.E.: O erke é um instrumento de sopro que se assemelha a um berrante muito comprido (de 3 a 7 metros), feito de tubos de cana. É utilizado por culturas tradicionais do norte da Argentina e sul da Bolívia.

6 Pablo Kohan. Jornal La Nacion (Buenos Aires), 2 de novembro de 2015.

7 Entrevista do compositor ao autor, 2013.

 

 

MARTÍN LIUT

Professor de História da Música da Universidade Nacional de Quilmes e da Universidade de Buenos Aires.

 

Texto extraído da tese de doutorado Cosmopolitas, Nómades, Músicos de la Distancia. Compositores de Origen Argentino en la Francia del Siglo XXI, em cotutela pela École des Haute Études en Sciences Sociales (Paris) e Universidad Nacional de Quilmes, 2017.

 

Tradução de Marcos Bagno e adaptação de Júlia Tygel

 

 

GRAVAÇÕES RECOMENDADAS

 

Marcela Méndez, Arpa: Música para arpa de compositores argentinos, Vol. II
Fonocal, 2017
[Benzecry: Alwa]

 

Andrés Spiller: Recent works for oboe

Testigo, 2013
[Benzecry: Cuatro Pequeñas Piezas]

 

Miradas / Reflexos: Escudero; Falla; Villa-Rojo; Olavide; Bernaola; Benzecry; Aponte-Ledée; Alandia; De Pablo
Ensemble LIM
Jesus Villa Rojo, direção musical
LIM, 2007
[Benzecry: Como uma Luz desde el Infinito]