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ENSAIOS
Figuras parisienses: Camille Saint-Saëns
Autor:Marcel Proust
22/mai/2021

“É um gênio, diz uma velha lenda, mas um gênio burlão. Rei dos espíritos da música e do canto, ele possui todos os segredos, e mesmo aquele, tão logo queremos nos aproximar dele, de fugir para o mais longe, sempre incapturável.” No momento de Ascanio [1890], enquanto o procuramos na França, ele percorre as Canárias. Esta noite, oculto sob o nome de um encantador músico defunto que ele vai ressuscitar, mais uma vez se esquivará de nossas homenagens. Será que agora vai escapar das garras do meu pensamento que tenta capturá-lo, e não me deixará, como um duende desaparecido, nada além de “vento entre os dedos?”

 

Gênio inspirado da música, dotado de uma sensibilidade profunda — basta-vos percorrer, sem falar de A Lira e a Harpa, Ascanio, esta lira, ou Sansão e Dalila, esta harpa –, ele se apraz, como um Gustave Flaubert, como um Anatole France, em escondê-la sob sua riqueza, sob sua ciência de grande escritor musical. Pois ninguém parece ter conservado melhor este pensamento célebre: “Todas as belezas intelectuais que se encontram num belo estilo, todas as relações de que ele se compõe, são todas verdades... talvez mais preciosas do que as que podem fazer o fundo de um discurso.”

 

Ele sabe rejuvenescer uma fórmula ao empregá-la em sua velha acepção e tomar, por assim dizer, cada frase musical, em seu sentido etimológico. Toma emprestadas as graças de Beethoven e de Bach ou, antes, como numa de suas mais belas transcrições, empresta a Bach graças que não lhe pertenciam.

 

Pintar num acorde, dramatizar com a fuga, eternizar pelo estilo; fazer caber tanta invenção e tanto gênio criador no emprego da escala quanto outro tanto no contorno de uma melodia, fazê-la correr em torno de uma ideia, como a antiga hera que preserva o monumento da ruína; outorgar assim à modernidade, pelo arcaísmo, suas cartas de nobreza; dar pouco a pouco a um lugar comum o valor de uma imaginação original pela propriedade erudita, singular, sublime, da expressão, fazer de um arcaísmo um traço de espírito, uma ideia geral, o resumo de uma civilização, a essência de uma raça, um traço de gênio jorrado da ferramenta ou caído do céu; [...] enfim, para fazer compreender uma religião, detestar um tirano, chorar uma mulher, ver Eros, ouvir o Eterno, limitar-se aos recursos, já não da própria música, mas da linguagem musical, divertir-se como um deus e como um diabo fazendo o mundo caber na música, a música na harmonia, toda a extensão do órgão na exiguidade do piano, são estes os jogos hábeis, desconcertantes, diabólicos e divinos deste humanista musical, que faz estalar a cada instante a invenção e o gênio no que parecia ser o domínio fechado da tradição, da imitação e do saber.

 

Artigo publicado no jornal parisiense Le Gaulois, em 14 de dezembro de 1895.

 

Tradução de Marcos Bagno.

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