Temporada 2017
outubro
s t q q s s d
<outubro>
segterquaquisexsábdom
252627282930 1
23 4 5 6 7 8
910 11 12 13 14 15
161718 19 20 21 22
232425 26 27 28 29
303112345
jan fev mar abr
mai jun jul ago
set out nov dez
PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
02
abr 2017
domingo 16h00 Coro da Osesp
Coro da Osesp e Valentina Peleggi


Valentina Peleggi regente
Coro da Osesp


Programação
Sujeita a
Alterações
Arvo PÄRT
Magnificat
Claudio MONTEVERDI
Adoramus te, Christe
Cantate Domino
Samuel BARBER
Agnus Dei
Claudio MONTEVERDI
Zefiro torna e'l bel tempo rimena
Paul HINDEMITH
Seis Canções
Claudio MONTEVERDI
Lagrime d'Amante: Darà la notte il sol
Olivier MESSIAEN
Louange a l'Immortalité de Jesus
INGRESSOS
  R$ 48,00
  DOMINGO 02/ABR/2017 16h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

Monteverdi +450!


Várias grandes áreas temáticas entrelaçam as peças deste programa: música a cappella, versões corais de música instrumental, e uma homenagem a Monteverdi pelos 450 anos de seu nascimento. Mas uma linha as reúne: a concepção do tempo. Um sutil fio vermelho liga o espaço mental de Arvo Pärt a Monteverdi; e esse tempo não é determinado, mas dependente do texto. Os dois compositores abordaram o incrível poder da palavra como elemento que perturba a métrica dos compassos: é o ritmo da palavra, das sílabas, que dita as regras do tempo musical.


O Magnificat de Pärt, por exemplo, em quase todos os compassos, é irregular e único, porque é o texto que constrói a forma dos compassos. Com um método chamado tintinnabuli [sinos], Pärt chega a um espaço onde o tempo é rarefeito, torna-se um momento de meditação. Sons longos como pedais suportam homorhythmías, que lembram as antigas salmodias.


Diz Arvo Pärt: “Tintinabulação é um lugar mental onde, de vez em quando, eu passeio quando estou à procura de respostas - para minha vida, minha música, meu trabalho. Em minhas horas mais sombrias, tenho a sensação de que nada tem sentido. O complexo e multifacetado só me confunde, e devo procurar a unidade. Mas o que é isso, e como faço para encontrar meu caminho até lá? Traços desta coisa perfeita aparecem em muitas formas - e tudo o que não é importante desmorona. Tintinabulação é assim [...] as três notas de uma tríade são como sinos”.


A partir deste espaço atemporal, emergem também as harmonias de Monteverdi. Agora o ouvinte tem novos ouvidos, purificados, para se aproximar da música assim chamada “antiga”: uma peça sagrada e uma secular, uma que sabe de incenso e outra de lascivas harmonias de corte. Se por um lado Monteverdi está relacionado a Pärt na aderência à métrica do texto, de outro está ligado a Barber, numa concepção harmônica mais moderna. E o tempo se desfaz numa contemplação estática em todos os três compositores.


Aqui, no compositor americano, uma melodia prolongada e lenta, formada por pequenos intervalos, ligeiramente modificada em várias repetições, repousa sobre acordes intermináveis para alcançar um clímax vigoroso, que nos traz às alturas extremas nas vozes, num último grito de súplica. Este maravilhoso Agnus Dei é uma versão coral, feita pelo próprio Barber, do segundo movimento do Quarteto Para Cordas em Si Menor, seguindo sugestão de Arturo Toscanini. (A versão para cordas foi tornada famosa pelos filmes O Homem Elefante, de David Lynch, e Platoon, de Oliver Stone.)


Na sequência, apresentamos os madrigais de Monteverdi, que no fim da Renascença já vão se aproximando do início do Barroco – lado a lado primeiro com Hindemith e depois com Messiaen. As Seis Canções são uma coleção de Hindemith sobre textos de Rainer Maria Rilke, onde a atmosfera barroca se aproxima à simbolista, e a descrição dos animais, coisas ou estações é realmente uma projeção de dimensões internas e estados de espírito. A coleção foi concluída em 1939; poucos meses depois, ao explodir a Segunda Guerra Mundial, Hindemith deixaria a Europa rumo aos Estados Unidos.


No mesmo ano 1939, Messiaen foi chamado para combater pelo exército da França, mas durante uma ofensiva alemã acabou sendo capturado. Junto com outros presos, foi transferido para o campo de concentração Stalag VIII-A de Görlitz, onde permaneceu por um ano. O oficial encarregado de Stalag gostava muito de música, e ao descobrir as habilidades de Messiaen (como de três outros músicos prisioneiros), deixou que preparasse um concerto no acampamento. Messiaen escreveu para estes músicos – violoncelista, violinista e clarinetista – primeiro um curto trio (que mais tarde se fundiu no trabalho como o quarto movimento) e, em seguida, com a adição de um piano (interpretado pelo próprio Messiaen), criou o Quatuor pour la fin du temps. A última peça do programa é a versão para coro de Clytus Gottwald do último movimento do Quarteto, intitulado Louange a l’Immortalité de Jesus (Louvor à Imortalidade de Jesus). O texto utilizado aqui vem das Trois Petites Liturgies de la Présence Divine, do próprio Messiaen.


O Quarteto foi completado no início do ano seguinte e estreado em 15 de janeiro de 1941 para uma plateia de prisioneiros. Consiste de oito movimentos, cada um com seu próprio título. O assunto principal é o tempo, considerado sob três perspectivas: religiosa, filosófica e musical.


Na perspectiva religiosa, o Quatuor é dedicado ao Apocalipse (ou seja, o fim dos tempos) e a partitura abre com uma citação do texto de São João. Na perspectiva filosófica, baseado em São Tomás de Aquino e em Bergson, Messiaen desenvolve sua própria concepção, a partir da diferença entre eternidade e tempo: a eternidade é imóvel, e o tempo é a separação entre um antes e um depois. Este é o tempo humano.


Na perspectiva musical, Messiaen estava convencido de que o tempo musical classicamente entendido não era suficiente para ele. Estava procurando uma música que expressasse as alturas do sentimento humano (especialmente religioso) e acreditava que a estrutura tradicional em compassos, organizados em acentos fixos, era algo limitado.

 

“Minha primeira preocupação consistiu na supressão do tempo mesmo, algo infinitamente misterioso e incompreensível para a maioria dos filósofos, de Platão a Bergson.” O efeito contemplativo e espiritual procurado por Messiaen nos traz de volta a Arvo Pärt, exatamente onde começamos esta viagem. Porque onde não há tempo, não há limites – mesmo na música.

 

VALENTINA PELEGGI
 é Regente Titular do Coro da Osesp e Regente em Residência da Osesp.