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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
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18
set 2015
sexta-feira 21h00 Quarteto Osesp
Quarteto Osesp: Quem tem medo de Schoenberg?


Quarteto Osesp
Manuela Freua soprano


Programação
Sujeita a
Alterações
Maurice RAVEL
Quarteto em Fá Maior
Arnold SCHOENBERG
Quarteto de Cordas nº 2 em Fá Sustenido Menor com Soprano, Op.10
INGRESSOS
  Entre R$ 71,00 e R$ 92,00
  SEXTA-FEIRA 18/SET/2015 21h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

MÚSICA NA CABEÇA


Palestras do ciclo Quem Tem Medo de Schoenberg?


17 SET QUI | 20H - Gurre-Lieder com Isaac Karabtchevsky

18 SET SEX | 20H - Quarteto nº 2 com Jorge de Almeida

19 SET SÁB | 15h30 - Gurre-Lieder com Jorge de Almeida

20 SET DOM | 15h - Pierrot Lunaire com Jorge de Almeida

21 SET SEG | 20h - Gurre-Lieder com Jorge de Almeida


GRATUITO

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Leia o ensaio Quem Tem Medo de Schoenberg?, de Jorge de Almeida.

Notas de Programa

O Quarteto em Fá Maior, de Maurice Ravel, faz parte da obra de juventude do compositor. Trata-se da primeira grande peça de Ravel, pois até então sua produção tinha se resumido a páginas curtas. Foi escrita entre dezembro de 1902 e abril de 1903, período em que ele precisava digerir a mais recente reprovação no prestigioso Prix de Rome.


Única incursão que faria no gênero, o Quarteto foi dedicado a Gabriel Fauré, que, no entanto, não demonstrou grande entusiasmo pela peça, em particular por causa do quarto movimento, que julgou “curto, mal equilibrado e, francamente, perdido”.1 Diante de tal avaliação, Debussy também seria consultado e declarou: “Em nome dos deuses da música, e do meu, não toque em nada do que você escreveu em seu Quarteto”.2 E assim foi feito.


O Quarteto Heyman estreou a obra em Paris, num concerto organizado pela tradicional Société Nationale de Musique — que tinha por objetivo a divulgação de obras de compositores contemporâneos franceses — na sala de concertos da Schola Cantorum, em 5 de março de 1904. A recepção foi controversa: o crítico Pierre Lalo escreveu no jornal Le Temps que, sob vários aspectos, o Quarteto de Ravel era demasiadamente próximo ao de Debussy. Já Jean Marnold afirmou no Mercure de France, em abril de 1904: “É necessário guardar o nome de Maurice Ravel. É o nome de um dos mestres de amanhã”.

 

Importante ressaltar que as obras de Ravel sempre foram recebidas com receio pela Société Nationale de Musique, sendo duramente atacadas por Lalo, ardente defensor dos ideais da associação. Essa realidade levou Ravel e uma nova geração de compositores a abandonar a SNM e fundar, em 1909, a Société Musicale Indépendante, igualmente voltada para a divulgação da música contemporânea.

 

A unidade dos quatro movimentos que formam o Quarteto é obtida por meio do uso cíclico dos temas. Assim, o “Allegro Moderato”, estruturado na forma-sonata, apresenta os dois temas que, em diversas disposições e transformações, estão presentes no decorrer da obra. Fazendo uso do segundo tema no surpreendente movimento que segue, Ravel afirma toda sua genialidade, recriando, por meio do uso magistral do pizzicato, um ambiente de leveza e humor, contrastado por um reflexivo episódio central. Possivelmente, Ravel quis realizar aqui uma homenagem implícita a Debussy, que tanto admirava. Basta observar que o segundo movimento do Quarteto deste, composto dez anos antes, explora igualmente o pizzicato, recria o mesmo ambiente e traz praticamente a mesma indicação de andamento.

 

O terceiro movimento, grande momento reflexivo da obra, traz elementos dos temas já apresentados. A presença marcante da viola é ainda mais evidente.

 

O brilhante movimento final revisita mais uma vez as ideias expostas inicialmente, apresentadas aqui como uma espécie de moto-perpétuo, em acelerando constante, sendo explorado ao máximo o virtuosismo dos instrumentos. Nota-se ainda uma significativa evolução dos timbres graves em direção aos agudos. O especialista Marcel Marnat descreve esse procedimento por meio de uma belíssima imagem: “Entendamos Ravel — e isso se afirma definitivamente com o Quarteto — como um artista para o qual as piores angústias integram-se numa sucessão de esforços em direção a dias melhores”.3 [2014]

DANIELI LONGO BENEDETTI é pianista, professora no Departamento de Música da Unesp e autora de Obras de Guerra: A Produção Musical Francesa Durante os Anos da Primeira Guerra Mundial (Annablume/Fapesp, 2013).
1. Manuel, Roland. Ravel (Paris: Mémoire du Livre, 2000), p. 54.
2. Ibidem.
3. Marnat, Marcel. Maurice Ravel (Paris: Fayard, 1986), p.126.

 

 

 

Arnold Schoenberg escreveu o Quarteto nº 2 entre 1907 e 1908, utilizando textos do poeta Stefan George e prevendo a participação de uma soprano. O caminho iniciado com o sexteto Noite Transfigurada, de 1899, sombria investigação a respeito da relação amorosa, é agora levado adiante: Schoenberg partia definitivamente em busca do atonalismo.

 

Àquela altura, porém, o compositor ainda se via preso entre uma nova forma de compor e a sensação de perda em relação ao que abandonava. Schoenberg não se considerava um músico de vanguarda, sabia que estava dando sequência a algo já iniciado. A força histórica que o levou para o atonalismo era, para ele, inevitável e incômoda: “Eu me senti como se estivesse caindo num oceano de água fervendo”,1 escreveu. Ao mesmo tempo, não podem ser ignorados nesse passo artístico elementos da sua própria biografia. Seu Quarteto nº 2 foi dedicado à esposa, que o havia deixado para viver com o pintor Richard Gerstl, e a vivência da desilusão parecia refletida nos novos rumos que sua música tomava.

 

Da mesma forma, é preciso lembrar que Schoenberg vivia num momento em que a arte, impulsionada pelo desenvolvimento da psicanálise, começava a revelar emoções cada vez mais intensas e angustiantes. Nascia o Expressionismo — e ele não parecia caber mais dentro da harmonia tonal tradicional. A nova arte necessitava de novos recursos. E também nesse sentido é possível entender a chegada de Schoenberg ao atonalismo.

 

“Sinto o ar de outros planetas”: essas palavras, que abrem o quarto movimento, “Entrückung” [Arrebatamento], mexeram com o compositor. Schoenberg criou um mundo de imagens de espera, distanciamento e suspensão do sentimento erótico, em que a música não é mais presa pela gravidade entre tons. Precedido por dois movimentos com harmonia tonal expandida e um movimento tonal permeado por grandes zonas atonais, com uma linha angustiante para a soprano, o quarto movimento é lento e, pela primeira vez, atonal. A escrita vocal é solene e, no fim, um grande epílogo culmina num gigantesco acorde maior. Poderia soar como a resolução de todas as tensões musicais e existenciais da peça, mas o feito de Schoenberg é fazer até mesmo o acorde perfeito maior causar estranhamento.

 

A recepção do Quarteto testemunha o momento de transformação artística, social e cultural do início do século XX. O violinista Arnold Rosé, integrante do grupo responsável pela estreia, afirmou que Schoenberg estava 20 anos à frente de seu tempo. E a primeira apresentação, em dezembro de 1908, na sala Bösendorfer, em Viena, foi um escândalo. Os discípulos do compositor aplaudiam, enquanto o público mais conservador gritava, gargalhava, exigia que os músicos parassem de tocar. Ao final do concerto, houve um embate físico no foyer do teatro. A polícia foi chamada. A música, bem como as manifestações, pareciam profanar o espaço sagrado da sala de concertos.
MANUELA FREUA é cantora.
1. Griffiths, Paul. Modern Music: a Concise History From Debussy to Boulez. Londres: Thames & Hudson, 1978.

 

 

PROGRAMA
QUARTETO OSESP
MANUELA FREUA SOPRANO
MAURICE RAVEL [1875-1937]
Quarteto em Fá Maior [1902-3]
- Allegro Moderato. Très Doux [Muito Suave]
- Assez Vif. Très Rythmé [Bastante Vivo. Muito Ritmado]
- Très Lent [Muito Lento]
- Vif et Agité [Vivo e Agitado]
23 MIN
_____________________________________
ARNOLD SCHOENBERG [1874-1951]
Quarteto de Cordas nº 2 em Fá Sustenido Menor Com Soprano, Op.10 [1907-8]
- Mässig [Moderado]
- Sehr rasch [Muito Vivo]
- Litanei. Langsam [Litania. Lento]
- Entrückung. Sehr langsam [Arrebatamento. Muito Lento]
32 MIN